Ele era respeitadíssimo no exterior. Aqui, só gente da minha faixa etária lembrava dele com o espanto que suas apresentações causavam: como era possível fazer a união entre o jazz rock e o samba usando um… trombone? Mas era isso mesmo o que ele fazia e com uma maestria difícil de imaginar até mesmo nos dias atuais, em que sons de diferentes universos se conectam num piscar de olhos.

O impacto de ouvir Raul de Souza em alguns dos LPs mais desconcertantes que posso lembrar de meu passado “roqueiro radical” foi sim uma ferramenta incrível para ampliar ainda mais os meus horizontes sonoros a partir do final dos anos 70. A gente sabia que Raul de Souza estava radicado nos Estados Unidos, pois ele aprendeu com Sergio Mendes que morar e trabalhar fora do Brasil eram as melhores coisas a fazer para quem fazia aquele tipo de som. Se adquirir seus discos naquela época já era difícil – só consegui encontrar em ótimo estado o ótimo Sweet Lucy (1977) e o bom Viva Volta (1986, gravado ao vivo) – hoje álbuns como Colors (1975), Don’t Ask My Neighbors (1978) e Til Tomorrow Comes (1979) se tornaram “moscas brancas” por aqui. Só muitos anos depois descobri que ele tinha estreado em carreira solo em 1965 com o excelente À Vontade Mesmo, uma das obras-primas do samba-jazz, bem depois de ter sido integrante dos grupos Turma da Gafieira e Bossa Rio, este último no liderado exatamente por Sergio Mendes.

 

 

 

Ouvi-lo e vê-lo em ação significava estar diante de um improvisador de primeira categoria, já que era dotado de espantosa habilidade para criar sons na hora. Era um claro sinal que Raul era “macaco velho” dos bailes e das gafieiras da zona oeste do Rio em uma época em que as grandes lições musicais eram aprendidas na noite e na marra. Chegou até mesmo a inventar o souzabone, um trombone com quatro válvulas em vez das três tradicionais, só para dar ainda mais riqueza ao seu som suingadíssimo.

Ele morreu ontem, vitimado por um câncer na garganta. Corra para os serviços de streaming e tente ouvir os discos que citei. Depois, trate de adquiri-los, sabe-se lá como. Garanto que você não vai se arrepender e ainda por cima vai prestar aquela homenagem caprichada ao homem que levou a música brasileira para o restante do mundo a bordo de um trombone.