Nunca vou me cansar em declarar em alto e bom som e por intermédio de palavras escritas que fazer com que crianças em tenras idades e adolescentes espinhudos se interessem em aprender a tocar algum instrumento é um caminho bem pavimentado para tirá-los das tentações das drogas, do emburrecimento coletivo galopante que reina no Brasil atualmente e para propiciar um futuro minimamente digno. Sem contar o aprendizado de fundamentos básicos de respeito, educação e profissionalismo, três palavras que parecem ter sido riscadas do dicionário nacional.

Um dos exemplos disso ocorre atualmente no interior do Rio Grande do Norte, mais precisamente na cidade de Cruzeta. Acredite se quiser: em uma das localidades mais pobres do Brasil existe uma orquestra filarmônica! E que gera anualmente inacreditáveis R$ 2 milhões de receita, que servem para pagar salários e uma série de outros benefícios! Parece mentira, mas não é. Leia mais a respeito disso aqui, em uma reportagem do jornal espanhol El País já traduzida para o Português.

É óbvio que a implementação desse sistema de ensino e cidadania demanda dinheiro – e muito dinheiro! -, mas se você pensar nas imensas quantias que foram desviadas em propinas e todos os demais escândalos que recentemente transformaram o Brasil em alvo de chacota mundial, vai chegar à mesma conclusão: dinheiro existe, só que é pessimamente aplicado.

É imperdoável que um País tão musicalmente rico como o nosso tenha que implorar para que aportes financeiros tenham que ser dados como se fossem esmolas pelo Banco Mundial. Para piorar ainda mais, a constatação da existência do gene da corrupção no DNA do povo brasileiro – não adianta espernear, é isso mesmo! – certamente já começou a afastar iniciativas de financiamento externo para projetos muito bem intencionados existentes por aqui.

Veja o que está acontecendo com uma de nossas mais importantes instituições musicais, o Conservatório Musical de Tatuí, no interior de São Paulo. Há décadas sendo uma altíssima referência quando se pensa na formação musical no Brasil – ele é considerado como uma das três melhores escolas de Música da América Latina, hoje ele que vem sofrendo com a demissão de professores e músicos, além de um genuíno desmonte por conta de sucessivos “cortes de verbas”. Sem qualquer transparência em sua administração recente e apresentando deterioração visível de sua infraestrutura, a escola reflete de modo deprimente a vertiginosa desvalorização da cultura no Brasil e o hediondo descaso do governo em relação à arte. Uma vergonha hecatômbica!

É preciso acreditar – e muito – que o ensino musical feito com seriedade no Brasil pode se transformar em um meio eficiente de combate à pobreza, seja ela intelectual, econômica ou moral. Faço aqui a minha parte. Faça a sua.