Redescobrindo Kevin Coyne

De tempos em tempos dou uma vasculhada em minha coleção de discos atrás de coisas que há muito tempo não ouço. Faz bem para o meu espírito “arqueólogo” e também para meus próprios ouvidos votar a ouvir certos sons e me certificar se eles ainda continuam “batendo” bem.

Confesso que fiquei surpreso em perceber que tenho vários discos de um sujeito muito maluco. Tão doido – no bom sentido, claro – que centrou grande parte de suas letras retratando o universo e o tratamento injustamente preconceituoso que quase todo mundo tem em relação aos deficientes mentais. E isto veio da influência direta que ele teve ao viver isto de perto, quando trabalhar por vários anos em hospitais psiquiátricos. Sim, redescobri o fato de que tenho vários discos de… Kevin Coyne.

A maneira como ele tratava o blues e o folk era de uma heterodoxia impressionante. Muitas vezes cantando como se estivesse à beira de um colapso mental, Coyne tinha fãs ardorosos, como Sting e John Lydon – que, ainda sob a alcunha de “Johnny Rotten”, se inspirou em uma das canções de Coyne, “River of Sin” antes de botar os vocais em “Anarchy in the UK” -, ambos bastante influenciados por suas melodias e pela maneira ‘estrombólica’ de cantar. Aliás, Sting disse certa vez que ficou muito feliz quando encontrou com o futuro guitarrista do The Police, Andy Summers, pois sabia que ele havia feito parte da banda de Coyne anos antes. Pode apostar que grande parte dos vocalistas das bandas de punk surgidas na segunda metade dos anos 70 na Inglaterra tinha em Coyne uma inspiração e tanto na hora de, ahn, “cantar”.

 

 

Coyne contava que certa vez tinha recebido um telefonema do empresário do The Doors um dia depois da morte de Jim Morrison, perguntando se gostaria de substituí-o no grupo. Se isto for verdade, diz realmente muito a respeito de como funcionavam – e ainda funcionam – as coisas no show business. Ele viveu suas letras tão perto que acabou tendo um ‘piripaque’ mental em 1985, agravado pelas quantidades nababescas de álcool que ingeria diariamente. O negócio foi tão grave que seus amigos tiveram que tirá-lo da Inglaterra e levá-lo para a Alemanha, onde morou até a sua morte em dezembro de 2004.

Dizendo-se uma das poucas pessoas na Terra que não eram fãs dos Beatles – para quem eram apenas uma “resposta britânica” ao som americano que ele tanto adorava, como Chuck Berry, Little Richard e tantos outros -, Coyne sempre privilegiou o fato de que uma boa canção podia ser o retrato perfeito de qualquer assunto, pois mais incômodo que fosse. A fase “paz & amor” da música dos anos 60 e 70 foi uma farsa para ele, pois havia pouca paz e doses diminutas de amor naqueles tempos. Para quem dizia que construir uma boa música era como esculpir uma obra em madeira ou pintar um quadro – artes que ele conhecia bem e praticava o tempo todo -, as canções de Coyne tocavam em nervos expostos da tradicional hipocrisia britânica.

Faz falta um cara como Kevin Coyne em todos os cenários musicais do mundo atual, não?

 

 

 

 

 

5 respostas

  1. Prezado Regis, enquanto você está redescobrindo, eu estou descobrindo, então muito obrigado. Só mais uma coisa (sei que não tem a ver com o assunto, perdoe-me), mas sei que você gosta de homenagear artistas lendários enquanto ainda estão vivos; li que Lee Kerslake está com um câncer terminal, infelizmente. Pretende escrever sobre ele? Obrigado mais uma vez, sempre ligado aqui no site!

  2. Interessante texto sobre este cidadão que, pelo que li a respeito, deve ter sido um grande idiossincrático… Falando em idiossincráticos lembrei aqui do jazzista Tom Waits. Você conhece o trabalho dele?

  3. Interessante texto sobre este cidadão que, pelo que eu li a respeito dele, deve ter sido um grande idiossincrático…

    Falando em idiossincraticos, lembrei do jazzista Tom Waits. Vc conhece o trabalho dele?

      1. Bacana, Regis… Eu estou conhecendo o trabalho do Tom, mas a vontade de ouvir Star Time do James Brown falou mais alto e parei no Blue Valentine.

        Obrigado por mais uma sugestão musical e pelo belo texto

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