Nem sempre escrever algo instantaneamente a respeito de determinado assunto que acabou de acontecer é a melhor coisa a se fazer. Às vezes, é preciso aguardar um pouco, esperar que mais detalhes venham à tona para, enfim, tecer algum comentário que venha formalizar a opinião. Faço isso constantemente porque sei que a impulsividade e a ansiedade podem me levar a olhar determinada situação por um único monitor, deixando de prestar atenção a outros detalhes muito importantes.

Um bom exemplo disso aconteceu anos atrás quando o U2 lançou Songs of Innocence, que foi lançado em edição “física” depois que a banda e a poderosa Apple botaram para funcionar a estratégia de disponibilizar gratuitamente o álbum para 500 milhões de usuários do iTunes.

A princípio, julguei a estratégia brilhante: quem gosta do U2 teria o disco novo de graça, automaticamente. Foi então que, dias depois, me veio à mente: e quem não gosta do som da banda? Foi aí que saquei que ao enfiar o disco novo nos arquivos destas pessoas sem o devido consentimento das mesmas, os envolvidos naquela estratégia haviam criado um precedente perigosíssimo para a invasão de privacidade. Não foi à toa que Bono teve que vir a público semanas depois para pedir desculpas, tantos foram os protestos de usuários. Para piorar ainda mais a situação, muita gente maldosa insinuou que a capa tinha um cunho ‘pedófilo’ e tiveram que engolir sua maldade de pensamento quando foi divulgado que a foto traz o baterista Larry Mullen Jr. abraçado ao seu filho.

Semana passada, resolvi ouvir o álbum seis anos depois de seu lançamento físico e isso causou em mim as mesmas opiniões distintas que escrevi na época em um texto para o Yahoo. Primeiro, que a ordem das músicas no disco está totalmente errada; depois, que grande parte má vontade que as pessoas tiveram em relação ao álbum se deveu à escolha equivocada do primeiro “single”, a canção que quase sempre dá a milhões de ouvintes preguiçosos a (errônea) ideia de como soa um disco.

Sei que pode parecer absurdo para quem ouve música nos dias atuais usando o “random”, “shuffle” ou sei lá qual o nome que os serviços de streaming dão ao sistema que permite ao usuário ouvir músicas aleatoriamente, sem critério algum, algo que nem mesmo as rádios jamais fizeram. Se ouvir um disco inteiro fora da ordem já é um absurdo – consegue imaginar fazendo isto com o The Dark Side of the Moon ou com o Led Zeppelin IV? -, imagine quando a própria gravadora e a banda pisam na bola e fazem escolhas equivocadas neste sentido – um dos casos mais emblemáticos disso é o Number of the Beast, do Iron Maiden -, muitas vezes deixando para o final as melhores faixas, como aconteceu com um subestimado álbum do Judas Priest, Demolition. Pior ainda: quando a escolha da “música de trabalho” é uma das mais fracas de um disco. Quem esquece que “Tatoo”, o primeiro “single” do A Different Kind of Truth, do Van Halen, é a pior faixa do álbum?

É claro que sempre podemos contar com a estupidez dos próprios fãs. Na época, ouvi e li muita gente reclamando que a faixa de abertura de Songs of Innocence, “The Miracle (of Joey Ramone)”, ‘não soava como os Ramones’, o que dá bem uma ideia de como as pessoas já andavam bem burrinhas naqueles tempos. Por que a banda deveria fazer algo que remetesse ao falecido vocalista só por citá-lo no título de uma canção? O problema real não era aquele, e sim que a canção soa como se o Coldplay resolvesse prestar um tributo ao Arcade Fire ou vice-versa até os dias de hoje. A mesma sensação é reforçada por “Every Breaking Wave”.

 

 

“California (There is No End to Love)” até que é uma canção simpática, que poderia ter sido incluída no ótimo álbum que o U2 lançou em 2000, All That You Can’t Leave Behind, mas não dá para perdoar Bono por ter escrito algo tão insípido quanto “Iris (Hold Me Close)”, que passa batido pelos ouvidos mesmo quando sabemos que ela foi composta para a sua falecida mãe. Também escrita por Bono como um tributo a sua esposa, Ali Hewson, “Song for Someone” é uma daquelas baladas que fariam com que os isqueiros e celulares fossem acionados nos shows, mas da qual ninguém se lembraria na saída.

 

 

 

Então, de repente, surge “Volcano”, a canção mais legal do álbum, com seu baixo marcando presença logo de cara, belos timbres de guitarra e com um vigor que praticamente inexiste no restante do disco. É a partir dela que Songs of Innocence começa realmente a funcionar…

 

“Raised By Wolves” é outro momento de brilho, com sua letra de forte cunho político sendo acompanhada por um instrumental elaborado e muito bem arranjado, que precede a bateria pesada, as guitarras distorcidas e um riff simples dobrado com um violão de modo certeiro da ótima “Cedarwood Road”.

 

 

Se “This is Where You Can Reach Me Now” foi inspirada no The Clash – como ‘papagaiaram’ muitos colegas estrangeiros na época que só leram o release que a gravadora soltou -, pode apostar que não foi no som. Explícita mesmo é a homenagem ao som que o Kraftwerk fazia anos 70 na angustiante “Sleep Like a Baby Tonight”, que aborda a pedofilia na Igreja católica.

 

 

A introspectiva “The Troubles”, com a participação da desconhecida cantora sueca Lykke Li, é daquelas baladas épicas que sempre fizeram parte do repertório da banda e que encerram o álbum com alguma galhardia.

 

Quem comprou na época a edição “de luxo”, que vinha com outro CD, contendo versões alternativas e remixes, se deu bem, porque nele estão duas boas faixas até então inéditas e que não entraram no disco principal por “bobeada” da banda, “Lucifer’s Hands” e “The Crystal Ballroom”.

 

 

Nos dias atuais, permanece a sensação que Songs of Innocence retomou em algumas faixas o conceito de “texturas eletrônicas” exibido em álbuns anteriores, mas que voltou suas atenções inteiramente ao passado de seus integrantes, especialmente Bono, em termos de letras – cada canção parece ser um diminuto trecho da biografia de cada um.

Se alguns discos da banda formam um volume fundamental para se entender a música pop depois do advento do punk – Boy (1980), The Joshua Tree (1987), Achtung Baby (1991) –, Songs of Innocence está muito longe de ser emocionante. Quando você descobrir que a ordem das canções faz uma diferença significativa no processo de audição de um disco, vai perceber também que algo muito importante se perdeu quando as pessoas passaram a dar mais valor à quantidade de músicas em seus iPhones.

 

 

 

 

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