Um perfil no Twitter avisou ontem: “3 years ago, David Bowie released Blackstar”. Ao mesmo tempo, outro perfil relembrou: “David Bowie born this day, 1947, London.” Mesmo dia em que Elvis Presley nasceu. Não acredito em coincidências, mas vá lá… Era o momento certo para reouvir o chamado “disco de despedida”, já que ele foi lançado dois dias antes de Bowie voltar a seu planeta de origem. Premeditadamente, com um timing impressionante, o álbum foi o meio que ele encontrou para se despedir deste mundo terreno e miserável. Com o mesmo controle com o qual conduziu sua carreira, repleta de guinadas radicais e não menos que sensacionais, Bowie foi embora sem esperar pelos aplausos.

 

Blackstar, assim batizado informalmente, já que o título mesmo deve ser grafado em textos como uma “estrela negra”, representou o último desdes redirecionamentos. Que outro sujeito faria de sua morte uma derradeira obra prima de inquestionável valor artístico? Bowie pensou conscientemente naquilo que célebres pintores do passado tiveram de modo inconsciente: a admiração de sua obra post mortem. E agiu sem cometer erros. Nunca mais deixaremos de pensar em Blackstar de outra maneira. Para sempre o álbum será lembrado como uma “tela sonora” de indescritível beleza criada em vida por seu autor para ser adorada depois de sua morte.

As dicas de suas intenções estão nos clipes de “Lazarus” e “Blackstar”. No primeiro, cujo título remete ao discípulo ressuscitado por Jesus, Bowie está em seu leito de morte, levitando por baixo do cobertor, desejoso por alçar aos céus, mas impedido pelas conexões com o mundo terreno. No segundo, ele age como se fosse o mensageiro de inúmeros enigmas. Em ambos, sem um mísero sinal do câncer que o matou, Bowie está com uma venda, feita com gaze de hospital, com botões no lugar dos olhos. Faz sentido, pois ao final da vida ele enxergou tudo sob outro prisma.

 

 

Em cada letra do álbum há um tom de despedida diferente. Só sabemos disso agora que Bowie se foi. Tudo escondido por trás de metáforas e jogos de palavras que ele sabia tão bem fazer. Até mesmo a grafia de seu sobrenome aparece estilizada de maneira imperceptível aos olhos normais, embaixo da estrela negra. Ah, você não tinha sacado? Então o tio Regis aqui contou mais um segredinho para você…

Os sons são densos, com camadas sobrepostas que remetem a duas paixões de Bowie: o experimentalismo e o jazz, um em sinergia com o outro. A jovem banda que o acompanha é liderada pelo saxofonista/flautista Donny McCaaslin, que Bowie conheceu em um boteco de Nova York. O combo de músicos desconhecidos deu ao cantor uma “cama sônica” perfeita para que ele pudesse tornar explícita a admiração que tinha pelo álbum To Pimp a Butterfly, do rapper Kendrick Lamar, para muita gente o melhor álbum de 2015. Não para mim, mas isto não vem ao caso agora…

O jazz se faz mais explícito na dançante “Tis a Pity She Was a Whore”, com o sax de McCaaslin soando de modo quase “free” em relação à harmonia da canção. Assim como em “Sue (or in a Season of Crime)”, que aparece no disco em uma versão diferente daquela incluída na coletânea Nothing Has Changed, lançada um ano antes. Ambas soam mais encorpadas e caóticas, o que é muito bom para o contexto do álbum. Comparem as duas abaixo:

 

 

 

“Girls Love Me” traz um pouco daquele tempo em que Bowie era fascinado por drum n’ bass, apesar de soar lúgubre e moderna ao mesmo tempo, a ponto de não soar deslocada caso tivesse sido incluída no estupendo Earthling, de 1997.

 

Se a linda balada “Dollar Days”, com Bowie ao piano e um belíssimo solo de McCaaslin, é daquelas de trazer lágrimas aos olhos de qualquer ser humano, vivo ou não, “I Can’t Give Everything Away” encerra o disco como um acento pop classudo surpreendente para quem ouve o repertório na sequência, como se estivesse dando uma piscada de olho sacana para todos nós ao embalar dessa forma uma letra completamente nostálgica e em tom de despedida, e ainda com um magistral solo de guitarra de Ben Monder, completamente influenciado por um antigo parceiro de Bowie, Robert Fripp, o líder do King Crimson.

 

 

Blackstar deveria ser creditado a David Jones, seu nome verdadeiro. O “personagem David Bowie” morreu no álbum anterior, o também ótimo The Next Day. Agora sim aquele título faz sentido…