Uma tentativa de pouso de emergência em uma rodovia que deu errado. O piloto Ronaldo Quatrucci fez tudo o que estava ao seu alcance para contornar a queda. Para seu azar e de seu passageiro, o helicóptero bateu em um caminhão e explodiu em chamas. Dois corpos carbonizados estendidos na pista, duas vidas desaparecendo em questão de segundos no meio do fogo. Morreram o piloto talentoso e um dos maiores jornalistas que este Brasil já teve a honra de ter como seu, mesmo que argentino de nascença. Infelizmente, o jornalismo brasileiro ficou ainda mais perdido no meio do verdadeiro “Gre-Nal de quarta divisão” em que se transformou o Brasil. Inesperadamente, Ricardo Boechat nos deixou.

A esta altura dos acontecimentos, você já deve ter lido em todo canto a respeito de como o seu precoce desaparecimento de nosso cotidiano está sendo lamentado por todos. Ou quase todos, pois andei lendo por aí que alguns ‘evangélicos’ atribuíram a um hipotético ‘castigo divino’ a morte do jornalista desde que ele se envolveu em um bate-boca com o pastor Silas Malafaia, o que só comprova que a crença em Deus para alguns é sinal de retardamento mental em estado gravíssimo e de um caráter que não merece outra coisa a não ser a fogueira eterna de Satanás.

Não pretendo ser mais um a repetir os mesmos elogios que todo mundo já fez. Quero celebrar a vida e a obra de Boechat pelo irretocável exemplo de jornalista que ele foi enquanto viveu e de como sua respeitabilidade na TV, no rádio ou onde quer que fosse atingiu a mim de maneira contundente. Ele representou tudo aquilo que me fez mergulhar de corpo e alma nessa profissão tão execrada de uns tempos para cá pela imensa manada de bovinos anti-intelectuais que parece ter tomado conta do Brasil e, talvez, do mundo inteiro. Boechat checava as informações antes de descer a lenha em todo mundo. Isso já o transformava em um raro espécime dentro da profissão. Batia sem piedade tanto no governo como na oposição, não importa quem estivesse em cada lado da trincheira. Nunca anunciava qualquer notícia como se fosse um robô e algumas de suas frases se tornaram antológicas, assim como a sua irreverência austera, de um cinismo adorável.

 

O mais incrível é que Boechat sabia muito bem embasar as balas que emanavam de sua metralhadora verbal. Não era fácil resistir ao seu discurso em assuntos que geravam dúvidas em minha cabeça, pois sua argumentação não surgia de algum tipo de delírio – algo tão comum nos dias de hoje nas redes sociais -, mas de fatos e constatações que deveriam ser absorvidas, raciocinadas e devolvidas na forma de uma conversa racional e adulta. Até mesmo na hora de soltar umas bobagens aparentemente despretensiosas ele exibia uma comicidade furiosa e irreverente – vide a sua inacreditável imitação do “Cornholio” do desenho Beavis & Butthead, as gargalhadas genuínas em seus papos radiofônicos com José Simão  e o “vai procurar uma rola” endereçado ao Malafaia.

Era muito raro eu discordar de sua argumentação a respeito do que quer que fosse. Suas opiniões sempre contundentes vinham acompanhadas de um sarcasmo que eu simplesmente vou continuar adorando até o fim de minha própria existência. E ele não poupava ninguém! O fato de jamais ter se dobrado ou sequer abaixado a cabeça para os inúmeros inimigos que arregimentou sempre fez com que minha admiração crescesse de maneira exponencial.

O carinho emocionante de todas as pessoas que trabalharam com ele foi expresso das mais variadas maneiras ao longo do dia de ontem: depoimentos com lágrimas nos olhos, choros incontroláveis, aplausos, carretas de taxistas e o que mais você imaginar. Foi pouco.

Adeus, meu caro Boechat!