Meu irmão Ronaldo Martins enviou mais um texto interessante e que certamente vai fazer com que você pare para pensar. Se vai concordar ou não, aí é outra história. Agora é com contigo…

Chega a ser hilário acompanhar as manifestações de apoio a Ricky Gervais nas redes sociais. Uma enorme quantidade de pessoas do polo político mais à direita ovacionando-o, elevando-o ao status de ídolo pela achincalhada monstruosa contra a elite artística de Hollywood. A decepção dessas pessoas ao se aprofundar no trabalho dele deve ter sido imensa.

Recentemente, foi anunciado que a tour mundial de seu novo standup teve venda antecipada de três milhões de ingressos, o que garantiu a ele um contrato de 40 milhões de dólares com a Netflix pela exclusividade da exibição do mesmo. A reação dele diz muita coisa: “Os melhores fãs do mundo. Um enorme obrigado a todos que compraram seus ingressos. A vida é difícil para a maioria das pessoas e apesar de me lembrar bem como isso era, hoje tenho uma existência fácil e privilegiada. É por isso que não dou sermão a respeito do mundo real ou em quem votar.” Quem souber ler nas entrelinhas vai entender que a inclinação dele é para o lado oposto dos seus recentes admiradores. E é justamente aí que Ricky se diferencia da maioria dos comediantes, especialmente no Brasil.

Uma das piadas que passaram despercebidas aos brasileiros na mais recente edição do Globo de Ouro, talvez por falta de referência, foi com o suicídio do bilionário Jeff Epstein, condenado por abuso sexual e tráfico de menores. A piada causou mal estar, já que Epstein era amigo de vários figurões ali presentes. Outros amigos famosos de Epstein eram Donald Trump e Bill Clinton. Em outro momento, ele fez troça da exigência por representatividade, dizendo que não deixou que passassem o famoso memorial em homenagem aos falecidos naquele ano pois a lista de pessoas “não era diversa o suficiente, havia brancos demais” e “quem sabe ano que vem, dependendo de como as coisas fossem”, ele deixaria a homenagem ser feita. Consegue imaginar uma piada dessas feita por aqui?

Quase no mesmo fôlego, ele acusou todos de fazerem vista grossa às grotescas atitudes de assédio sexual de Harvey Weinstein que, finalmente, foi preso em 2018 – porém, solto sob fiança – e caiu em desgraça.

Ricky não poupa ninguém. Ele faz piadas com tudo e com todos, sem distinção: homens, mulheres, gays, transexuais, minorias, maiorias e até religião, mesmo sendo ateu confesso. E é aí que entra a hipocrisia do Porta dos Fundos…

Liberdade de expressão é liberdade de expressão. Ponto final. Ou você pode fazer piada com tudo ou não pode fazer com nada. O grupo de comédia sofreu censura apoiada por eles mesmos quando a corda arrebentava apenas “do outro lado”. No caso da condenação do comediante Danilo Gentili por fazer troça da deputada Maria do Rosário, alguns membros do Porta e outros comediantes militantes foram veladamente partidários da “ofendida”. Acabaram sentindo na própria pele o quão relativa é a essa tal liberdade no Brasil.

Aquela frase atribuída a um milhão de pessoas faz sentido: “Posso não concordar com suas palavras, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las.” Gervais não escolhe alvos, não usa humor como militância política. Se estivesse no Brasil, já teria há tempos feito troça do assassinato daquela deputada – é melhor nem citar o nome porque não quero encrenca – e, provavelmente, seria condenado por isso. O Porta nem sempre age assim.

O humor não pode ter limites. A piada é uma das mais duras críticas possíveis de se fazer. Não gosta de determinado tipo de humor? Simplesmente não dê atenção, não ria. O limite do humor é a risada. Se ninguém rir, cadê a graça?