É sério: pegue as crianças que moram com você, reúna todo mundo no ambiente onde houver um aparelho de som de qualquer época. Torça para que tudo esteja em funcionamento. Então coloque para tocar cada uma das faixas de Feral Roots, o sexto álbum de estúdio do quarteto californiano Rival Sons. Ao final da audição, observe o resultado na molecada e em você mesmo. Será bem mais barato e agradável do que tentar subornar a petizada a deixar de ouvir esses lixos musicais que transformaram a “hora do recreio” em momentos de lavagem cerebral infantil.

Desde que soltaram em 2009 seu álbum de estreia, Before the Fire, já dava para sacar que o grupo era diferenciado em relação a seus pares que igualmente construíam suas bases sonoras em cima de alicerces de hard rock e blues muito influenciados pelo Led Zeppelin. Só que agora o grupo atingiu o auge de sua capacidade em fazer canções que serão consideradas antológicas em um futuro não tão distante.

Os trabalhos do vocalista Jay Buchanan e da cozinha rítmica formada pelo baixista Dave Beste e pelo baterista Michael Miley não são menos que fantásticos e se tornam o suporte perfeito para que o guitarrista Scott Holiday brilhe com uma intensidade raramente ouvida em discos do gênero. Junto com a preciosa ajuda de seu “integrante não-oficial”, o tecladista Todd Ogren, para criar texturas sônicas que se juntam para criar no ouvinte a sensação – real! – de estar diante de uma obra-prima. A produção de Dave Cobb mais uma vez conseguiu dar a um disco do Rival Sons um senso de espontaneidade difícil de esquecer, a ponto de eu mesmo suspeitar que grande parte do álbum foi gravada ao vivo em estúdio.

“Do Your Worst” e “Sugar on the Bone” mantêm os traços da benção do lendário grupo de Jimmy Page, mas traz sua sonoridade para a modernidade de quem curte o som do Jack White, com distorções e saturações cuidadosamente bem reguladas para causar estranheza e empolgação ao mesmo tempo. “Back in the Woods” é a canção perfeita para atender a lei da “oferta e procura” por quem não se furta a deixar a preguiça de lado e descobrir bandas que honram os sons do passado, mais precisamente a década de 70. Outro exemplo disso é o fato que todo fã dos Rolling Stones e dos Faces vai sorrir de satisfação ao ouvir uma canção como “Stood by Me”.

 

 

 

 

A atmosfera acústica e hipnótica de “Look Away”, e da faixa-título – ambas remetendo completamente ao Led Zeppelin III – tem uma interessante sinergia com a psicodélica balada “All Directions”, todas lindas de chorar. Em contrapartida, as pesadas “Too Bad”, “End of Forever” e “Imperial Joy” trazem à lembrança um pouco de Free e, principalmente, Black Sabbath, talvez pelo fato de a banda ter passado muito tempo no ano passado abrindo os shows da turnê de despedida da banda do Ozzy Osbourne e do Tony Iommi. A experiência deixou resquícios nos caras.

 

 

 

 

 

 

O encerramento do disco com o coral gospel do The Nashville Urban Choir, responsável por trazer vibrações angelicais e potentes a “Shooting Stars”, não poderia ser melhor: é a página sônica final de um dos discos mais impressionantes da década!