Roberto Avallone foi o palmeirense que adorávamos ridicularizar como a um tio maluco

Eu não perdia uma Mesa Redonda nas noites de domingo na TV Gazeta. Nas raras vezes em que sabia que não estaria em casa no horário, botava o videocassete no “timer” para que gravar e assistir depois. O programa era um vício que todo mundo que amava o futebol não perdia, a ponto de passar décadas sendo a atração de maior audiência da emissora paulista. Também, não era menos.

Imagine alguns dos mais empedernidos jornalistas da crônica esportiva paulista, reunidos em uma bancada, frequentemente ofendendo uns aos outros com uma gritaria insana perante convidados atônitos – a maioria, jogadores dos times para os quais torcíamos -, com uma argumentação ora bem embasada, ora dita com uma cara de pau inacreditável e quase cômica. Era um festival de “humor involuntário” hipnótico! E no comando da porra toda estava aquele que, em vez de colocar certa ordem nas discussões, frequentemente botava mais gasolina na fogueira com intervenções tão malucas quanto o bate-boca em si: Roberto Avallone.

Pouca gente da minha geração sabia que ele tinha sido um repórter dos bons – ganhou dois “Prêmio Esso”, uma espécie de “Oscar do jornalismo brasileiro” –, que havia trabalhado nas principais rádios paulistas (Eldorado, Globo, Jovem Pan, Bandeirantes, Capital, Record e outras) e que tinha sido um dos chefes dos chefes de reportagem do saudoso Jornal da Tarde“. Conhecíamos o apresentador falastrão e absurdamente palmeirense que comandava a atração da Gazeta, com bordões que eu e meus amigos repetíamos todas vez em que jogávamos bola e depois íamos para o bar.  Nunca escondeu no ar que era torcedor doente do Palmeiras e cada opinião mais contundente era pontuada por “vírgula” e encerrada como “exclamação!”, toda pergunta tinha com o final o bordão “interrogação” e mudanças de assunto e chamadas para os intervalos comerciais eram antecedidas por hilários “no pique”, tudo dito com uma canastrice inacreditável! Não importava para qual time o cara torcesse: todo mundo repetia as falas de Avallone e tirava sarro dele com o humor com o qual sacaneávamos algum tio doidaço.

Depois de quase vinte anos comandando aquele verdadeiro manicômio esportivo, Avallone foi demitido em 2003, sabe-se lá por qual motivo. Ouvi uns boatos horrorosos a respeito disso que não irei revelar, pois provavelmente eram histórias plantadas por quem não gostava dele. Obviamente, ele tinha lá seus desafetos dentro do jornalismo esportivo, mas isso não vem ao caso agora. Muito menos vou santificar o genial palmeirense. Tinha qualidades e defeitos como todos nós…

Avallone morreu hoje pela manhã, vitimado por um ataque cardíaco. Não tenho a menor dúvida que, ao chegar onde quer que seja em um plano espiritual, as primeiras palavras dele serão “Vamos organizar as coisas aqui. Então, no pique!!!  Primeiro bloco, Palmeiras; segundo bloco, Palestra Itália; terceiro e último bloco, mais Palmeiras”…

9 respostas

  1. No mundão pasteurizado que vivemos essas figuras originais vão fazer uma falta tremenda. Saem de cena os “Avallones” e entram os “Ivan Morés” metidos a engraçadinhos. Parem as máquinas.

  2. Avallone, assim como o Milton Neves, entendia que o futebol é a mais importante entre as coisas menos importantes. Por isso mesmo, sempre preferi jornalistas esportivos do estilo deles, onde os limites em que terminava o jornalismo e começava o entretenimento eram mais tênues. Caras mais pretensiosos, que se levavam À sério demais, como o Juca Kfouri, sempre me irritaram um pouco.

    Ironia do destino: a evolução tecnológica está matando a mídia como a conhecemos. O modelo de negócio baseado em editorias especializadas, com grandes custos para apuração de informações e geração de conteúdo não consegue mais se pagar. Mas esse modelo que o Avallone criou no esporte é muito mais enxuto em matéria de custos, e já migrou para o jornalismo político e até econômico. Quem tem dúvida disso, é só acompanhar as produções da Gobo News e da Jovem Pan. Todas elas são “mesas redondas” sobre os respectivos assuntos.

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