Roger Daltrey resgata seu próprio passado no exuberante “As Long as I Have You”

Fazia muito tempo que Roger Daltrey não lançava um disco solo, mais precisamente desde 1992, quando soltou o insípido Rocks in the Head. Não sei ao certo porque o vocalista do The Who demorou quatro anos para preparar este novíssimo disco, visto que ele começou a trabalhar nele assim que sua extraordinária parceria com Wilko Johnson, ex-guitarrista do cultuado grupo inglês Dr. Feelgood, foi lançada em 2014 com o título de Going Back Home. Talvez as turnês ao lado de Pete Townshend – que participa da maioria das faixas do álbum tocando violões e guitarras – e a meningite viral que acometeu o vocalista tenham atrapalhado a cronologia das gravações, mas posso afirmar que a demora valeu a pena…

Basicamente, As Long as I Have You é um álbum em que Daltrey resgatou repertório alheio e de primeira categoria, tendo composto ele mesmo apenas duas canções muito legais: a balada “Always Heading Home” e “Certified Rose”, com uma pegada meio “blues de New Orleans”. No restante, sua abordagem nas canções do passado é simplesmente primorosa.

Em “The Love You Save”, do injustamente esquecido cantor americano Joe Tex, Daltrey nos impele a fazer uma viagem no tempo até a década de 60, aproveitando cada segunda da canção para exalar uma emoção rara em tempos de total superficialidade que vivemos hoje. A faixa-título, do pouco conhecido cantor americano de soul Garnet Mimms, simultaneamente nos faz lembrar como soaria o The Who se o grupo bebesse mais nas fontes da Motown e de como Daltrey ainda é capaz de reviver a influência da música negra que recebeu quando ainda era um moleque barra-pesada perambulando pelas ruas de Londres.

Em “How Far”, de Stephen Stills, ele soa como se fosse um integrante do Buffalo Springfield – o lendário grupo que Stills teve com Neil Young -, principalmente pelo fato colocar seu ainda poderoso vocal a serviço de uma canção que é prima do maior hit daquela banda, “For Whats Its Worth”.

Suas vocalizações em “I’ve Got Your Love”, do Boz Scags, e a sublime reinterpretação de uma linda pérola funk de Stevie Wonder, “You Haven’t Done Nothing” não deixam dúvidas de que Daltrey pinçou a dedo cada uma dessas maravilhas. No vídeo abaixo, ele fala a respeito da escolha dessas duas canções:

 

Um dos pontos altos do disco é a surpreendente inclusão da belíssima “Into My Arms”, do Nick Cave, na qual Daltrey mergulha no mesmo universo das tonalidades graves com uma identificação impressionante em relação ao que pede a canção.

Posso afirmar sem medo de errar: As Long as I Have You estará presente em 99,9% das listas de “Melhores Álbuns de 2018”.

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11 respostas

  1. Regis, uma resenha extraordinária, como sempre (aliás, estava com uma saudade danada de suas resenhas). Parabéns! E, claro, o álbum é realmente fenomenal e, arrisco dizer, essa música do Nick Cave, Into my Arms, ficou melhor que a original. Mas isso é só minha opinião.

  2. Caro Régis, desculpe me comunicar por aqui , pois não tenho Facebook , porém acompanho sua página . Parabéns pela banda Doutor Origami e por ” castigar” a bateria da maneira que fez !!! Quase quebrou as baquetas ,cara !!! E que vocalista essa Ana Salvador, meu !!!!! Nível internacional !!! Ainda vou assistir um show de vocês . Abraços !!! P.S : Excelente matéria sbre o Roger Daltrey.

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