Nunca gostei desse papo de “comemoração de data de morte”. Primeiro, porque não se ‘comemora’ o falecimento de alguém, mesmo com o semblante mais pesaroso possível. Depois, é muito mais legal celebrar esse tipo de coisa na data que corresponderia ao nascimento, ao aniversário do cara. Que façamos isso com o melhor astral possível, certo?

É exatamente por isso que esperei o dia de hoje para republicar um texto que escrevi em minha coluna durante  meus tempos de Yahoo, um dia depois da morte de Ronnie James Dio em 16 de maio de 2010. Resolvi fazer isso porque fui avisado que ele não está mais em lugar algum, muito menos nos arquivos do referido portal.

Se você já leu, fique à vontade para cair fora daqui e visitar outras seções aqui do meu site. Se não leu, saiba que foi escrito por um sujeito que, na época, já tinha praticamente meio século de vida, mas que jamais esqueceu quem o ajudou, de uma maneira ou de outra, a chegar onde estou hoje. Aqui está minha homenagem, mais uma vez.

A voz. Aquela voz. A primeira vez que a ouvi foi quando comprei, aos quinze anos de idade, o primeiro disco solo de um de meus guitarristas favoritos. Naquela época, sem acesso às revistas importadas e sem imaginar que um dia teríamos algo parecido com a internet, a gente sabia que Ritchie Blackmore havia saído do Deep Purple, que o grupo tinha recrutado o Tommy Bolin para substituí-lo e só. Mais nada.

Até que um dia, visitando a loja de discos onde eu sempre comprava meus LPs, vi na prateleira, extasiado, que havia sido lançado um disco chamado Ritchie Blackmore’s Rainbow, com uma capa que misturava em um único desenho o castelo – que representava o início de sua paixão pela música renascentista – e a guitarra que ele empunhava com tanta genialidade naqueles tempos.

Comprei o disco e voltei correndo para casa para ouvi-lo. Foi então que a surpresa se tornou ainda mais agradável quando os primeiros sulcos de “Man on the Silver Mountain” começaram a ser percorridos pela agulha de meu velho toca-discos. Quem era aquele cara que cantava com potência e certa rouquidão? Quem era aquele sujeito que não imitava o David Coverdale e muito menos o Ian Gillan? De onde havia surgido aquele baixinho que parecia contar uma história em cada canção daquele disco?

A cada faixa que ouvia, o tal cara – chamado Ronnie James Dio – desfilava interpretações tão intensas, injetando sensações perfeitas para cada canção – tensão em “Self Portrait”, safadeza em “Black Sheep of Family” e “If You Don’t Like Rock n’ Roll”, suavidade sofrida nas lindas baladas “Catch the Rainbow” e “Temple of the King” e uma quase arrogância em “Snake Charmer” e “Sixteenth Century Greensleves” -, que transformavam o disco em uma escancarada “carta de intenções” do que Blackmore viria a fazer no futuro e que também explicavam porque o temperamental guitarrista tinha abandonado a sua famosa banda.

Um ano depois, outra surpresa, só que em proporções interplanetárias. Um segundo disco de Blackmore, Rising, agora apenas ostentando o nome da banda – Rainbow – e com uma capa ainda mais espetacular.

Fiz o mesmo que o ano anterior: comprei o LP e voltei correndo para casa, ansioso para ouvir uma “continuação” do primeiro álbum. Inadvertidamente, coloquei o lado B para tocar inicialmente e… e… e… O que veio a seguir foi uma sensação inédita. “Stargazer” trazia uma inacreditável sequência de viradas alucinantes de um novo baterista – um tal de Cozy Powell -, um riff épico de Blackmore e… aquela voz! Só que agora carregada de uma dramaticidade que eu e toda a minha geração jamais havíamos ouvido até então!

Ronnie James Dio cantava com tamanha intensidade que éramos capazes de visualizar imagens que retratavam – literalmente ou não – aquilo que ouvíamos saindo dos alto-falantes de nossos precários equipamentos de som. O massacre era completado pelas monstruosas “Light in the Black”, “Tarot Woman”, “Starstruck” e outras. Quando terminei de ouvir o disco, meu cérebro havia escorrido pelas orelhas.

Daí para frente, Dio se tornou uma unanimidade quando alguém falava em “cantor de rock”. Sua reputação terminou de ser sedimentada quando saiu Long Live Rock n’ Roll. O disco era um apanhado das sonoridades dos discos anteriores – “Lady of the Lake”, “Gates of Babylon” e a espetacular “Kill the King” poderiam ter sido incluídas no Rising, enquanto que “L.A. Conection” e “Sensitive to Light” cairiam como uma luva no disco de estreia -, mas havia um “corpo estranho” ali, algo que estava muito além da proposta do disco, algo que, inconscientemente, dava uma pista do que iria acontecer com Dio no futuro: “The Shed” trazia o baixinho cantando com ira, como se estivesse em uma batalha contra seus demônios internos.

Um belo dia, visitando novamente a minha loja de discos favorita, outro choque. Já sabíamos que Ozzy Osbourne tinha saído do Black Sabbath e supúnhamos que a banda jamais iria conseguir sobreviver sem ele. Mas ali, na vitrine, estava um novo disco da banda, com três anjos fumando, chamado Heaven and Hell !!! “Ué, o Ozzy voltou com a banda? Legal!” Ao segurar o disco nas mãos e olhar a contracapa, eu simplesmente não pude acreditar: ali, desenhado, ao lado dos outros integrantes, estava ele: Ronnie James Dio!!! Mas como???

Ainda hoje não consigo externar em palavras a sensação de ouvir a sequência “Neon Knights”, “Children of the Sea”, “Lady Evil” e “Heaven and Hell”. Agora mesmo, no exato momento em que escrevo estas palavras, surge em minha mente a imagem de meu quarto e meu toca-discos. Da mesma forma, o impacto causado por Mob Rules – ainda sinto arrepios na espinha quando ouço aquele trecho acelerado no meio de “Falling Off the Edge of the World” –, o melhor disco que Dio gravou com os caras.

Com o passar dos anos, meu gosto musical acabou se expandindo em outras direções e atingindo vertentes muito diferentes. Mesmo assim, nunca deixei de acompanhar o que acontecia no heavy metal e, ao contrário de muita gente daquela época, jamais reneguei as bandas que adorava em minha adolescência.

Continuei comprando uma cacetada de discos legais do estilo, e era nesta categoria que Dio se enquadrava. Comprei cada disco que ele lançou. Ouvi com atenção até mesmo seus álbuns mais fracos – como o Lock Up the Wolves – e aqueles ignorados por todos, como o Master of the Moon. Fui atrás dos discos que ele gravou com sua banda antes de entrar no Rainbow, o Elf. Comprei uma coletânea em CD com as gravações de os compactos que ele gravou antes de mergulhar no Elf. Fiz isso porque sabia que mesmo que determinadas canções fossem menos inspiradas, nelas estaria aquela voz, que dava credibilidade até mesmo quando a criatividade do baixinho estava meio grogue, talvez porque ele tenha percebido em determinado momento da carreira que estava preso a um som e a uma imagem dos quais jamais poderia ser dissociado.

O título desta coluna resume tudo o que penso a respeito de Dio. Não chorei sua morte como se fosse um parente ou amigo íntimo. Não lamentei sua partida como um fã que acabou de perder um ídolo. Muito menos fiquei indignado quando colegas de profissão se meteram a criar polêmicas gratuitas para chamar a atenção. Quando a gente passa a trabalhar no jornalismo musical, aprende a se distanciar desse tipo de emoção e percebe que um rockstar é um sujeito como outro qualquer, com suas virtudes e seus defeitos.

Por isso, a única coisa que posso fazer neste exato momento é colocar minha mão direita na tradicional posição “metal horns” e sussurrar: “Muito obrigado por ter feito parte de minha vida, mestre”.