Tomou um susto com o título acima? Acha que é uma heresia? Que fiquei completamente louco logo no primeiro texto de meu próprio blog? Qualquer que tenha sido o seu pensamento inicial, a afirmação é inquestionável, quer você queira ou não…

Não tenho a menor dúvida que a grande maioria das pessoas sequer tem uma mínima noção que o riff de “Seven Nation Army” pertence ao repertório do extinto duo White Stripes e que foi criado por seu líder, o vocalista/guitarrista Jack White, que hoje desenvolve uma bem sucedida carreira solo. E é aí que reside grande parte da afirmação do título deste texto: a melodia com sete notas se tornou infinitamente maior que seu criador.

A audácia em comparar “Seven Nation Army” com os imortais hinos do Deep Purple e dos Rolling Stones é totalmente explicada pela maneira como as torcidas européias de futebol começaram a usar o riffem seus cantos nos estádios. Até mesmo os estádios do tradicional “futebol americano” e do baseballse renderam ao hino.

Quando pensávamos em uma “música popular” em escala global, até então os exemplos eram os piores possíveis: “Macarena”, “Dragostea Din Tei” (a pavorosa “Festa no Apê”), “Ai Se Eu te Pego”, “The Ketchup Song (Aserejé)” – conhecida como “Ragatanga” aqui no Brasil – e tantas outras se tornaram exemplos de como produtores/artistas tratam seus públicos como uma manada de retardados. Só que a ótima canção do White Stripes – assim como aconteceu com “Smoke on the Water” e “Satisfaction” – preencheu uma lacuna no imaginário musical de quem tem conhecimentos musicais próximos do zero.

A canção é tão bem elaborada para se tornar um grande hit que praticamente não há diferenças ao longo dela. A base para os versos e o refrão é a mesma. Hoje em dia, até mesmo crianças são vistas constantemente cantarolando as sete notas de “Seven Nation Army”.

Criado a partir de uma ideia surgida durante uma passagem de som para um show em Melbourne, o riff ganhou forma de canção pouco tempo depois e logo se transformou na faixa de abertura do ponto alto da discografia do duo, o álbum Elephant, de 2003.

Foi então que o “hino futebolístico” surgiu pela primeira vez no final daquele mesmo ano, quando os torcedores de um time belga, o Club Brugge K.V., se encontraram em um pub antes do jogo contra o poderoso Milan pela “Champions League” da UEFA. Já meio embriagados, começaram a cantarolar o riff da canção que tocava nos alto-falantes da casa, justamente “Seven Nation Army”. Saíram de lá todos juntos, cantando as sete notas pelas ruas e continuaram a fazer o mesmo dentro do estádio. Quando o time locar conseguiu a proeza de derrotar a poderosa equipe italiana por 1×0, adivinhe qual música se tornou praticamente o hino do clube toda vez que o K.V. marcava um gol? E assim foi até 2006, quando outro time italiano, a Roma, venceu o time belga na Copa da UEFA, e os torcedores do time vitorioso passaram a cantar as mesmas sete notas. De lá para cá, o riff assumiu proporções mundiais com o canto ‘Poooo, po po po po pooooo, po’.

A própria internet – sempre ela! – tratou de amplificar o alcance oral da canção nos estádios, rompendo não apenas fronteiras geográficas mais do que longínquas, mas principalmente em termos de quaisquer restrições sócio econômicas.

Claro que se pode argumentar que a canção é mais um exemplo da monocultura musical. Por outro lado, vários especialistas começaram a redefinir o termo “folk song” (canção popular) depois da ‘viralização’ da canção de White ao redor do planeta, deixando de lado a até então comum associação do termo à figura do cantor/compositor empunhando seu violão em minúsculos palcos de clubes ou até mesmo nas ruas.

O fato de White ser um profundo arquivista e fanático pelo lendário cancioneiro americano, a ponto de ter criado sua própria gravadora – Third Man Records – para resgatar esquecidos sons do passado, também o coloca como figura ímpar e importantíssima dentro da própria história da música mundial de todos os tempos. Inconscientemente, milhões de pessoas já incorporaram o riffao seu cotidiano.

É curioso perceber que enquanto os pilares da indústria musical vão ruindo em velocidade meteórica, o futebol acabe se transformando na ferramenta de popularização de canções e realimentando economicamente suas próprias bases. Claro que não me refiro ao indigente futebol brasileiro, evidentemente, mergulhado em uma crise moral e financeira sem precedentes.

Se o riffde “Satisfaction” e “Smoke on the Water” são representativos de suas respectivas épocas em termos musicais, os tempos modernos já elegeram a sua trilha sonora.