Suas histórias, com opulência e exageros estéticos intencionais, eram a antítese radical à cafonice cultural vigente em todas as épocas em que trabalhou. Seus heróis, sujeitos a “defeitos humanos”, vagavam por uma Nova Iorque imunda e cheia de ladrões, onde não havia espaço qualquer para a felicidade ingênua que o americano classe-média acreditava existir. Eram inúmeros universos destinados quase que exclusivamente para rapazes jovens e deslocados de uma sociedade que privilegiava os músculos em detrimento ao cérebro.

Enquanto suas histórias se tornavam uma mania mundial, os leitores não poderiam saber que estavam literalmente sendo abduzidos para mundos tão fantásticos quanto geniais, igualmente insinuantes nas propostas filosóficas escondidas nos roteiros, principalmente nas histórias de meu superherói favorito desde sempre, o Surfista Prateado. Ao processar cada proposta heróica de seus personagens, nossas mentes vagavam por espaços jamais sonhados. Estávamos todos hipnotizados.

A verdade é uma só: na história cultural mundial, Stan Lee se sobressaiu como um astronauta em meio a um piquenique.

Durante toda a vida, ele nunca escondeu o fato de ser um visionário. Seu gosto pela aventura ao lado da editora Marvel foi uma escolha ousada e extremamente feliz. Lee em si foi uma figura fascinante, símbolo da vitória da imaginação criativa perante a caretice dos costumes da sociedade americana. Era quase impossível ser mais “pop” que ele. Nas últimas décadas, o cara era tratado como uma estrela de primeira grandeza do rock por onde quer que pusesse os pés. Ninguém melhor que ele para desempenhar pequenas e engraçadas pontas nos filmes com os personagens que criou.

Nunca teve a falta de habilidade que normalmente leva qualquer artista a entrar em declínio. Apesar de viver cercado da adoração dos fãs, Lee estava muito longe de ser um ególatra – suas histórias continham os créditos de todo mundo que tinha contribuído de alguma forma para elas.

De bobo ele também não tinha nada. Tanto é verdade que, insatisfeito com as versões televisivas do Homem-Aranha e do Hulk, se mandou para a Califórnia logo no início dos anos 80 justamente para se enturmar com a turma do cinema de Hollywood, mas foi só quando a Marvel criou seus próprios estúdios e despejou sua liberdade criativa sem a pressão dos executivos tradicionais que a coisa toda deslanchou e deu no que deu: alguns sucessos estrondosos – Homem-Aranha, X-Men, Homem de Ferro,– e fracassos memoráveis, como Hulk e o Quarteto Fantástico. Normal, faz parte do jogo…

Um tema polêmico da carreira de Lee foi a sua real importância na criação dos personagens. Nerds mais empedernidos clamam que os desenhistas Jack Kirby e Steve Ditko eram os verdadeiros responsáveis pelo surgimento do Homem-Aranha, X-Men, Homem de Ferro, Hulk e Quarteto Fantástico. Outros dizem que Lee estregava esboços da história para que ambos, mais uma turma capitaneada por John Romita, Don Heck, Wally Wood e Bill Everett, desenhassem e, posteriormente, diálogos criados por ele eram preenchidos e a história então ficava pronta. Nunca saberemos a verdade. O que é inegável é o seu papel essencial para conectar todas as publicações da confraria da Marvel e trazer modernidade ao universo dos quadrinhos.

Se nos dias atuais o cinema de Hollywood sobrevive com a arrecadação de centenas de milhões de dólares a cada filme lançado contendo um de seus heróis, é graças a Stan Lee.

Milhões de fãs hoje lamentam a sua partida de um hipotético plano terreno rumo a um universo tão fantástico quanto sua alma pode conceber. Ele chegou onde queria e agora vai desfrutar eternamente de sua imaginação…