Temos que salvar a TV Cultura dos imbecis

tv cultura

Nos últimos tempos venho recebendo notícias e relatos cada vez mais preocupantes a respeito de como andam as coisas com a TV Cultura, uma emissora dona do carinho de todas as pessoas que vivem no Estado de São Paulo e que apresentem no mínimo quatro neurônios em pleno funcionamento.

Dá desespero ver uma emissora com uma proposta cultural sensacional caminhar a passos largos para um abismo sem volta. Para mim é bastante óbvio que o culpado por esse estado de coisas é justamente o Governo Estadual, que passou décadas colocando na presidência da Fundação Padre Anchieta um série de políticos e economistas responsáveis por uma infindável sequência de equívocos administrativos, sempre permeados com acusações endereçadas às “administrações anteriores”. Sempre o mesmo papo furado usado no mundo político. Uma vergonha!

Talvez eu esteja sendo ingênuo demais a essa altura da vida, mas acredito piamente que tal processo pode ser revertido. Talvez o primeiro passo fosse acabar com a verdadeira multidão de “funcionários fantasmas” que sangram a emissora com seus contracheques reais enquanto seus trabalhos são fictícios. Depois, se livrar da esmola fornecida pelo Governo Estadual e tratar de caminhar com suas próprias pernas por conta de outros patrocinadores. Gente que esteja interessada em atrelar suas marcas a um público que não seja cúmplice dessa horda gigantesca de debilóides que existe no Brasil. Não é possível que não existam empresas dispostas a se destacar no meio do oceano de mediocridade reinante no mercado com uma proposta realmente viável de manter a TV Cultura diferenciada para seus públicos e produtos. A estrutura da emissora existe. Basta apenas a injeção de dinheiro para manter funcionários REAIS trabalhando com um mínimo de entusiasmo.

Depois, por que não transformar a TV Cultura em um novo canal da música, mas sem o infantilismo dos últimos anos da falida MTV? Não seria demais se a emissora fosse o novo centro musical do que rola hoje por aqui e no mundo? Com programas voltados a todos os tipos de sons – rock e jazz em todas as suas vertentes, música erudita, soul, funk de verdade (e não aquela merda oriunda do Rio de Janeiro), world music e muita, mas muita música brasileira de qualidade, daquela que dá orgulho em cada um de nós, e não o monte de escrotices que só emocionam a quem é retardado.

Não seria genial ter uma programação voltada a todos esses gêneros, mostrando como cada um deles interagiu e ainda interage com outras formas de manifestações artísticas, como teatro, dança, pintura e o escambau a quatro? Lembro até de um antigo programa da emissora que, na verdade, era um “programa de calouros” só com candidatos que desejavam entrar no universo da música erudita, que se não me falha a memória era comandado pelo maestro Júlio Medaglia! Porra, puta ideia genial!

Pode apostar que a audiência da “nova TV Cultura” seria tão boa quanto aquelas verificadas em emissoras especializadas em vomitar programas de cunho sensacionalista, novelas ridículas, que erroneamente dedicam suas programações a cativar jovens com sérias deficiências de compreensão intelectual, que é justamente o público que já não fica mais sentado no sofá assistindo televisão. Uma audiência que, inclusive, já migrou para outras plataformas de acesso a qualquer tipo de conteúdo, como o celular, por exemplo.

Este artigo é apenas um humilde sinal de apoio a quem decidir tomar as medidas corretas para que seja estabelecido um plano de recuperar a emissora. Para quem também deseja transformá-la em um pequeno oásis cultural dentro deste imenso deserto de ideias que se transformou a TV aberta no Brasil, repleta de discursos vazios e atitudes que em nada contribuem para a valorização da cultura.

Sempre digo aos meus amigos e amigas: “Você vai encontrar o amor de sua vida assim que parar de procurar por ele”. Acredito que o mesmo aconteça com a TV. Assim que essa busca desesperada e desenfreada por audiência terminar, voltaremos a ter programas bacanas, com ideias geniais e descompromissados em relação às receitas das agências publicitárias. Atrações tão legais quanto foram Som Pop, Castelo Rá-Tim-Bum, As Aventuras de Tintim, Anos Incríveis e tantos outros. Aí sim a audiência voltará a ser significativa e qualificada. Adoraria que esta hipotética “nova TV Cultura musical” fosse o exemplo disso…

10 respostas

  1. Sem Dúvidas Régis,continuando no campo musical seria interessantissimo termos novamente programas como Musikaos ou Bem Brasil.

  2. O “programa de calouros” de música erudita ainda existe, sem contar, claro, com a participação do grande maestro Júlio Medaglia. Chama-se Prelúdio, programa que por si só já diferencia muito em qualidade cultural a TV Cultura de outras TVs abertas e, arrisco dizer, muitas fechadas também.

  3. De fato Regis, o que temos hoje em termos de conteúdo na Cultura não se compara a nada na TV aberta. Há pouco assisti o “Brasil toca choro”, dá vontade de ficar o dia inteiro. E a propósito, o programa de calouros que você citou se chama “Prelúdio”. Abraço.

  4. Só o fato de ser uma emissora que realmente se preocupa com o público infantil e dedica uma boa grade às crianças, já coloca a TV Cultura à frente de tantas outras.

    Das emissoras em VHF, o SBT ainda dedica um tempo diário para as crianças (não que seja de qualidade), coisa que Record e Band fingem fazer com umas poucas horas semanais de desenhos animados, e RedeTV!, Gazeta e principalmente Globo… bom, deixa pra lá.

  5. Faz tempo que sinto falta desse tipo de conteúdo. Por falar em MTV, como pode uma tv se transformar em algo tão nojento. Lembro da transição da MTV para o que ela é hoje, as atrações foram ficando cada vez mais pobres, os artistas foram sumindo de sua programação. Agora apostam naqueles programas batidos de gente bebendo e trepando o dia todo. Não sou puxa-saco, mas não posso deixar de afirmar que este espaço aqui é para mim uma opção cultural que não abro mão. Leio aqui dicas e críticas. Sempre gostei de música, e gosto de saber das histórias que há por trás delas. Neste espaço tenho a oportunidade de sabê-las. Obrigado.

  6. Eu sou muito pessimista quanto ao quesito cultura. Primeiramente não sou a favor da cultura bancada pelo Estado. Dentro deste quesito entram várias questões, escolhas de cunho ideológico, favorecimentos e coisas do tipo. Em segundo lugar, o problema é geracional. Lá em 2005 quando começou o advento da internet , a popularização entre grupos especificos da cena underground , a busca por bandas e artistas que fizessem a diferença, muito se falava sobre como a nova geração revolucionaria o cenário devido ao acesso a internet. Mas hoje percebemos que não basta ter a ferramenta, tem que ter interesse e conhecimento. E esta geração não tem nenhuma das duas características.
    Mas com toda a facilidade que existe a música, de uma certa forma a democratização que veio com plataformas como You Tube e Spotify , parece que não saímos daquele lugar midíatico. Talvez estamos pior do que já fomos.
    A geração que se acha moderna por escutar algo como Lana Del Rey, se acha diferente das pessoas que escutam o sertanejo. Mas não percebem que no final das contas mesmo no seu nicho eles são iguais aqueles que criticam, porque consomem tudo o que é de popular dento de sua bolha. Por isso os sucessos dos Linikers, Johny Hookers, Jaloos e afins da vida. É uma geração que quer a coisa mais “moderna” da próxima semana. Mas os mesmos não entendem, por falta de conhecimento, que não existe nada de moderno sendo produzido, não existe nada novo.
    E estas são as pessoas que amanhã vão comandar o mercado cultural. Ao mesmo tempo vivemos em país gigantesco e extreamente diversificado. Existe uma ideia que Rio de Janeiro e São Paulo são as mecas da cultura. Mas é neste momento que tomamos os sustos, não entendemos de onde surgem as Bandas Calypso, os Luans Santanas ou as Marílias Mendonças. Não entendemos que territorialmente o Brasil é um grande “interior”. Entramos com a nossa soberba da cidade grande e ignoramos o resto do país. Portanto cada vez mais a galera cool, descolada e moderna deixa de falar com o resto do país.
    A produção cultural é tão focada nesse povo, que não representam nada na população, que deixa de lado o resto do país. Entendam, isto não é uma defesa a baixa cultura, é uma constatação do porque ela acontece. Ou mesmo do porque o Bolsonaro foi eleito. Ninguém quer consumir a “cultura politica”, a vida do brasileiro por si já é dificil e ele não quer consumir o ideario que o jovem de São Paulo acha da vida, já que este pequeno jovem burguês nunca teve dificuldade na vida.
    Estes inclusives é um dos motivos que eu hoje eu entendo que a MPB , nunca foi POPULAR. Sempre foi um conjunto de músicas feita pela elite para a elite. Não estou julgando a qualidade nem desmerecendo, é mais um fato ou uma constatação. Não concorda ? Há dois anos atrás eu assistia o programa Silvio Santos, num dado momento naquele quadro “Qual é a musica”, em um auditorio de 200 mulheres ninguém sabia que a música era do Chico Buarque, e mais ninguém sabia que o cantor era O CHICO BUARQUE. E sejamos sinceros, o maior publico consumidor de Chico são as mulheres.
    Entender a diferença entre popular e elite é algo complicado na cabeça dessa geração. A Internet também tem culpa nisto. Ela com seus algoritmos nos colocou em bolhas sociais. Dia desses eu perguntava a um amigo gay de 27 anos , qual era o ritmo mais consumido no Brasil ? Ele dentro de sua bolha de morador do Rio de Janeiro, consumidor de midias sociais, frequentador apenas de espaços gays prontamente respondeu: POP. E dentro da sua realidade e da sua bolha social e seu desconhecimento ele nem parou pra pensar. E este mesmo amigo vai trabalhar em breve, por cargo de indicação, na ANCINE. Entre seus filmes favoritos estão coisas como Liga da Justiça, 500 dias Com Ela, As Vantagens de Ser Invisível, Memórias de uma Gueixa.
    Esta é a realidade. Temos uma geração auto centrada. Que não tem olhar pro real ou pro outro, mas dentro de seu moralismo politico acha que tem. Uma geração que não tem interesse em busca em conhecimento. E eles dominam cada vez mais as aereas como cultura.
    O seu papo lá com o guri do K-POP é uma prova disto, o Emílio conseguiu defender melhor o gênero do que alguém que diz consumir aquilo há 10 anos. Eles não entendem porque consomem, não entendem porque gostam. Acham que tudo é uma questão de gosto e se sentem ofendidos por alguém falar mal daquilo.
    O assunto tem muito pano pra manga, como diriam pessoas anciãs; São horas sobre isto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress