Não tem erro: toda vez que comento a respeito de um disco e/ou show de maneira negativa, recebo uma enxurrada de reclamações de fãs, a grande maioria com argumentações típicas de quem tem apenas uns oito ou nove neurônios, sendo que dois deles estão bem enguiçados. Infelizmente, são poucas as pessoas que conseguem rebater o que escrevo com uma mínima capacidade de argumentação inteligente e bem embasada. Isso sem contar as inúmeras ocasiões em que recebo ofensas de fãs de bandas e artistas que elogio em meus textos, em uma evidente prova que os energúmenos em questão sequer se deram ao trabalho de ler o que escrevi. Conversando com colegas de profissão, todos confirmam que o que acabei de escrever também acontece com eles. Tal fato provoca em mim sonoras gargalhadas e, ao mesmo tempo, um pouco de tristeza, já que a capacidade de compreender um texto vem caindo assustadoramente de algumas gerações para cá.

Um dos ‘mimimis’ que mais leio nas reclamações destes fãs descerebrados é o típico “todo crítico é um músico frustrado e você é apenas mais um deles”. Esse é um daqueles que mais me divertem, pois quem me acompanha desde os tempos em que era editor de revistas musicais sabe que sou baterista e ainda dou minhas “cacetadas” (obrigado, Didi Mocó!) em guitarra, baixo e um pouquinho nos teclados.

É lógico que minhas ações musicais não produzem grandes sucessos de público porque jamais tive a intenção de chegar a esse patamar. Já toquei em várias bandas desde que sentei atrás de uma bateria pela primeira vez – em 1979, quando passei a ser integrante no grupo Subúrbio, ao lado de Edgard Scandurra e Nasi, banda que foi o embrião do que mais tarde se tornou o Ira! – e em nenhum momento tive a ilusão de que eu seria um “astro do rock” ou “artista de sucesso”. Meu negócio sempre foi me divertir, ganhar uma graninha e chamar a atenção das garotas, é claro!

Existem no You Tube alguns vídeos que registraram algumas de minhas atuações ao longo dos anos. Algumas delas me enchem de orgulho – a mim mesmo e não a outras pessoas, que fique bem claro -, pois aconteceram em circunstâncias bem interessantes.

As duas primeiras são de 1987 e trazem as minhas primeiras participações televisivas com o grupo Muzak, que havia lançado um EP pela gravadora EMI. Eu havia acabado entrado no lugar do saudoso baterista Vitor Leite e, obviamente, tinha uma boa agenda de programas de TV para fazer. Na primeira você pode assistir ao popular “playback caixa e prato”, tão comum naqueles tempos, no programa do Raul Gil na TV Record – no qual, ironicamente, comecei a trabalhar a partir de 2010 como jurado e onde estou até hoje -, enquanto que na segunda o Muzak foi até o programa “Boca Livre”, na TV Cultura, comandado pelo igualmente saudoso Kid Vinil e a cantora/atriz Dadá Cyrino. Para quem curtia o nosso som, boas notícias: três décadas após o final da banda, voltamos a tocar juntos e estamos nos preparando para começar uma pequena turnê e possivelmente gravarmos um álbum. Enquanto isso, assista e divirta-se com a juventude do tio naquela época:

 

Em 2013 aconteceu comigo algo que me deixou muito, mas muito orgulhoso. Foi um daqueles momentos em que a gente carrega até o final da vida, tanto pela honra com a qual fui agraciado, como também pelo prazer da experiência em si.

Eu estava assistindo a um show da Patrulha do Espaço, um dos melhores e mais importantes grupos da história do rock nacional em todos os tempos, liderado por aquele que é considerado, por unanimidade, uma lenda entre os bateristas brasileiros: Rolando Castello Júnior, ou simplesmente o “Júnior da Patrulha”, um instrumentista dotado com uma técnica assombrosa e de uma intensidade ao tocar tão absurda que, na ocasião em que o grupo abriu os shows do Van Halen aqui no Brasil em 1983, fez os irmãos Alex e Eddie Van Halen saírem de seus camarins para assistir a apresentação da Patrulha na lateral do palco e aplaudirem todas as canções mostradas.

Pois bem, foi este monstro sagrado da bateria no rock nacional em todos os tempos que me concedeu uma honra inimaginável para quem acompanha sua carreira desde os tempos em que tocou no mitológico “disco da banana” do Made in Brazil em 1974: subir ao palco, sentar em sua bateria e tocar uma música com a banda! Assim, de bate pronto, sem ensaio prévio, sem combinações. Nada programado. Tudo baseado no instinto e no prazer de estar ali, naquele dia, naquele minuto, naquele local. Graças a Deus, recebi do próprio Júnior a incumbência de tocar uma de minhas músicas favoritas dentro do repertório da Patrulha do Espaço: “Festa de Rock”. O resultado desta honraria pode ser conferido no vídeo abaixo:

 

Sempre que sou convidado para tocar em eventos beneficentes em prol de crianças com câncer – algo que jamais recuso! -, peço para que os músicos não me digam qual a canção escolhida para que tudo possa ficar mais surpreendente e divertido sem ensaios prévios. O pessoal abusa e frequentemente escolhe canções horríveis de bandas que eu detesto, só para me sacanear. Em duas ocasiões mais recentes, os salafrários escolheram “In My Dreams”, do Dokken, e “Blood of My Enemies”, do Manowar. Que tremenda sacanagem!

 

“Todo crítico é um músico frustrado”? Não posso responder por meus colegas de profissão, mas… Eu? Jamais!