De tempos em tempos, zapeando pela TV a cabo, cruzo com a exibição de um filme que já devo ter assistido pelo menos umas quatro vezes. O assunto é velho e manjado – a relação entre professor e aluno -, mas nesse caso a abordagem atingiu um patamar altíssimo de excelência.

Se você sabe tocar um instrumento – qualquer um -, entende perfeitamente o quão difícil é a arte de partir do zero e atingir algum grau de eficiência na hora de tocar. É preciso esforço repetitivo, obstinação e até mesmo certa dose de obsessão para tirar uma sequência de sons decentes. Mas o que acontece quando isto envolve humilhações em público, ofensas e até mesmo agressões físicas por parte de quem está ensinando música? Qual o limite entre didatismo e tirania na hora de separar os homens dos meninos na busca pela genialidade musical?

É por isso que escrevo aqui com todas as letras: você tem que assistir Whiplash – Em Busca da Perfeição, escrito e dirigido por Damien Chazelle, que fez também o bom Toque de Mestre. É uma das mais brilhantes obras a revelar as fronteiras da obsessão pela perfeição técnica nos instrumentos.

De um lado há um garoto quase prodígio, baterista estudante de jazz em uma renomada escola, interpretado com sensibilidade e arrogância pelo jovem ator Miles Teller, que realmente toca bateria, embora seja nítido que ele tenha tido aulas de jazz para dar um pouco mais de autenticidade à sua performance. Do outro está o professor brilhantemente interpretado por J.K. Simmons, um ótimo e subestimado ator veterano que ficou mais conhecido das massas como o chefe de Peter Parker na trilogia do Homem Aranha.

De certa forma, ao tentar conseguir o sucesso que o pai, um escritor frustrado, não obteve em sua carreira – interpretado por Paul Reiser, que todo mundo lembra no Brasil pelo seriado Mad About You, ao lado de Helen Hunt -, o moleque se vê às voltas com um inescrupuloso e incrivelmente tirânico mestre, um professor que tem dentro de si a missão de ser uma espécie de comandante da alma de seus músicos. Reverenciado e impiedoso, ele representa a obsessão pelo rigor técnico em detrimento da espontaneidade do jazz e da música em geral. Há declaradamente uma guerra entre ambos.

A relação apresenta uma série de dubiedades: ora é recheada de conflitos, ora é plena de satisfação por objetivos conseguidos de maneira não muito sutil. As inúmeras situações de confronto entre ambos é um bom exemplo de que a empáfia pode gerar ótimas discussões. Os diálogos são quase brilhantes, principalmente durante o verdadeiro festival de ofensas que o professor dedica aos seus alunos na banda. Isso retrata bem o que acontece em grandes orquestras eruditas e até mesmo dentro do ambiente de prestigiosos conservatórios espalhados pelo planeta. Sim, existe o clima de discípulo e mestre, mas isso é levado a extremos que poucas vezes vi no cinema. Não foi à toa que o filme faturou o prestigiado Festival de Sundance em 2014.

Para quem não está acostumado ao ritmo vigoroso do aprendizado musical, principalmente no caso da bateria, Whiplash chega ser torturante. As feridas nas mãos do jovem baterista são o retrato de sua alma machucada por uma existência em que não há sequer lugar para o amor – um início de romance é pulverizado de modo absolutamente racional e frio. Não vou contar mais para não estragar o impacto.

Sem compartilhar nada que possa aplacar os corações politicamente corretos do telespectador, o filme deixa em cada um a estranha sensação de que estamos mesmo perdidos aos mostrarmos nossos sentimentos em relação à música e às artes em geral. Agora, se você não tiver um mínimo contato com a música de uma maneira mais séria e envolvente, vai passar o tempo inteiro ‘boiando’, sem entender porra nenhuma. Azar o seu.