Três discos que não podem passar despercebidos

Do jeito que a coisa anda hoje em dia, é impossível acompanhar todos os lançamentos de discos que acontecem a cada minuto no mundo inteiro. São tantas bandas e artistas seus respectivos álbuns quase ao mesmo tempo que é preciso que a gente estabeleça certas prioridades na hora de prestar atenção a determinados trabalhos.

É claro que a maioria das pessoas prefere ouvir os discos recentemente lançados dos artistas mais famosos. Só que também é preciso estar atento aos trabalhos de gente menos favorecida pela mídia, que muitas vezes aparecem com obras maravilhosas, mas são solene e injustamente ignorados pelo público e pela própria crítica dita “especializada”.

Vou mostrar aqui alguns discos que chegaram a ser lançados no Brasil anos atrás  e que hoje correm o risco de caírem em uma vala de indiferença, mesmo contendo altas doses de qualidade musical. Vamos a eles…

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STEFON HARRIS, DAVID SÁNCHEZ & CHRISTIAN SCOTT — Ninety Miles
A parceria entre dois extraordinários músicos americanos – o vibrafonista Harris e o trompetista Scott — e um estupendo instrumentista porto-riquenho – o saxofonista Sánchez — já seria digna de nota apenas pelo currículo de cada um deles, pois o trio já tocou com gente do naipe de Prince, Donald Harrison, Dizzy Gillespie, Diana Krall, Ry Cooder, Courtney Pine e Joshua Redman, entre outros. Mas quando o resultado disto é um disco gravado em Cuba, com músicos locais — com destaque para dois ótimos pianistas, Harold López-Nussa e Rember Duharte -, a coisa beira o status de obra-prima.

Para começar, o trio desenvolveu grande parte da musicalidade encontrada aqui a partir dos fundamentos do bebop e expandiu seus limites ao abraçar as cadências rítmicas caribenhas. Muito distante da abordagem “sanguessugas” de músicos com mentalidade do século passado que só querem ganhar uma gratificação maior no quesito “ecletismo de araque para galera mal informada metida a jazzista”.

Aqui não existe aquele papo “a primeira metade do álbum é boa e depois a coisa cai de qualidade”. Se você ainda não faz ideia a respeito de como o latin jazz pode soar rico e sensual ao mesmo tempo, este é o disco! Ouça abaixo na íntegra:

 

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GOTYE – Making Mirrors 
Esse é o nome artístico do multiinstrumentista e produtor belga Wouter “Wally” De Backer, que também é o baterista do grupo australiano The Basics. E é justamente  com esta alcunha que ele grava discos absurdamente sublimes, sendo que Making Mirrors, o terceiro na carreira e o primeiro lançado no Brasil, é disparado o melhor deles.

Poucos são os caras que conseguem imprimir ao pop características melódicas, harmônicas e rítmicas tão ricas e bem equilibradas na disposição de excelentes sacadas ao longo de cada arranjo e, por que não dizer, de um certo experimentalismo. As canções elaboradas por Gotye lembram o que aconteceria se Peter Gabriel, Thomas Dolby e Beck resolvessem formar uma parceria. Discão!

 

 

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LINDSEY BUCKINGHAM – Seeds We Sow
Sim, ele mesmo. O ex-vocalista/guitarrista do Fleetwood Mac e dono de uma carreira solo mais que digna e honesta. Aqui ele reaparece com um punhado de ótimas canções, gravadas em seu estúdio caseiro, todas com um forte apelo acústico por conta do extensivo uso do violão, o que conferiu a cada tema um intimismo e uma espontaneidade bastante inquietantes. Aliadas à rusticidade dos timbres dos outros instrumentos — todos tocados por Buckingham -, tais detalhes transformam o disco em uma espécie de “polaroide artística” do cara.

O final do disco, quando ele apresenta uma delicada versão de “She Smiled Sweetly”, dos Rolling Stones, revela um cara disposto a mostrar que aquele velho papinho “minha música é melancólica, mas o meu disco é bem produzido” é, como diria minha saudosa mãezinha, “conversa para boi dormir de gente insegura”. Buckingham fez justamente o contrário e se saiu muito bem.

 

 

 

 

9 respostas

  1. “Conversa pra boi dormir de gente insegura…” essa Dona Irene era um poço de sabedoria, hein. Baita texto, obrigado por novamente abrir nossas mentes e ouvidos, grande Régis. Abraço.

  2. Ei Régis, sei que não tem nada a ver com a matéria, mas o que você acha do Roxette, cuja vocalista Marie faleceu recentemente? Cresci ouvindo os inúmeros hits da banda por influência da minha irmã mais velha.

  3. Fala, Regis.
    Além dessas pérolas que você abordou no texto, gostaria que você opinasse sobre as músicas no universo dos games, pois, não raro, essas músicas, as quais algumas considero geniais, também não receberam – e ainda não recebem – seu devido valor, tal como os artistas os quais a criaram. Sinta-se à vontade de abordar esse assunto quando quiser, tanto aqui no seu blog quanto no Youtube.

    Só por curiosidade: qual seu jogo favorito?

  4. Olá Regis Tadeu. Aproveitando o tema sobre os solos de guitarra, lembrei que gosto de dar atenção as linhas de baixo nas músicas. Tenho duas entre tantas que gosto muito, o baixo de “something” e o de “a day in the life”, ambas dos Beatles. Ai pensei: e se você fizesse as quinze maiores linhas de baixo de todos os tempos? Que tal?. Quanto ao texto do poste, mais uma dica para eu procurar, obrigado.

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