Um Michael Jackson que quase ninguém conhece

Todo mundo que acompanha os meus textos e vídeos sabe de minha opinião a respeito de Michael Jackson. Por isto, a princípio, pensei em recusar os pedidos para que escrevesse algo a respeito desse atormentado ser que teria completado 60 anos de vida no mês passado. O que eu poderia escrever de interessante a respeito de uma figura já devidamente esmiuçada?

Foi então que lembrei de algo que sempre me deixou espantado: a constatação de que a maioria dos fãs brasileiros do cantor o idolatra do “período Thriller” em diante! Pouquíssimas pessoas demonstravam conhecer a fundo o álbum Off the Wall – quando o fazem, citam apenas as músicas que ganharam videoclipes, ou seja, as maravilhosas “Don’t Stop ‘Till You Get Enough” e “Rock With You”. Isto quando não dizem que Thriller é o “primeiro disco-solo” do cantor, ignorando a existência dos álbuns anteriores. Fora isso, mais nada. Ninguém demonstra sequer algum tipo de conhecimento profundo a respeito dos álbuns do Jackson 5. Nem vou comentar aqui a debilidade da maioria destes comentários, sempre com argumentações ‘inteligentes’ e ‘maduras’ do tipo “Regis, você tem inveja do Michael”, “você é uma bicha enrustida que nunca terá o sucesso dele”, “seu podre, o Michael sempre estará vivo em nossos corações” e outras babaquices típicas de quem tem um amendoim no lugar do cérebro.

O que vou mostrar aqui é uma espécie de “túnel do tempo” e mostrar uma faceta musical de Michael que os baba-ovos não conseguiram – e ainda não conseguem – enxergar. Garanto que você vai ficar surpreso com o que vai ouvir e ver…

 

Got to Be There (1972)

Logo em seu primeiro álbum solo, o pequeno Michael recebeu de presente do sensacional time de compositores da Motown uma cacetada melhor que a outra. De cara, a maturidade que exibe na versão para a maravilhosa “Ain’t No Sunshine”, de Bill Withers, já dava pistas de que Michael iria ser uma superestrela no futuro.

A sensação se prorrogava quando o menino soltava a voz ainda infantil – mas tremendamente segura – em um clássico como “Rockin’ Robin” e em temas suingados como “I Wanna Be Where You Are”. Até mesmo a versão de “You’ve Got a Friend”, de James Taylor, ficou ainda melhor com a abordagem de Michael e da turma da Motown.

Ouça abaixo o álbum na íntegra:

 

Ben (1972)

Tudo bem, a faixa-título é bonitinha, coisa e tal, mas fica muito aquém em termos de qualidade quando se ouve o resto disco. É incrível ouvir como Michael se ajustou bem no período em que sua voz estava mudando drasticamente.

É claro que o fato de o time de compositores da Motown ter voltado a trabalhar a todo vapor para suprir o pequeno Michael de boas canções em seu segundo álbum solo ajudou muito, mas não dá para ignorar sua destreza no balanço malemolente e cativante de “We’ve Got a Good Thing Going”, “What Goes Around Comes Around” e “People Make the World Go ‘Round” – esta gravada quase simultaneamente com a versão dos Stylistics. Da mesma forma, o belo arranjo de “Greatest Show on Earth” – feito pelo produtor James Anthony Carmichael, que trabalhava com os Commodores – criou uma atmosfera de cumplicidade com as boas versões de “Everybody’s Somebody’s Fool”, de Jimmy Scott, e, claro, na estupenda recriação de “My Girl”, dos Temptations, em uma versão bem mais funky. E o que dizer então da espetacular “Shoo Be Doo Be Doo Da Day”, dada de presente por ninguém menos que Stevie Wonder?

https://www.youtube.com/watch?v=1BFfgCIvURc

https://www.youtube.com/watch?v=mBtf4_l5S3U

https://www.youtube.com/watch?v=vjcnDWAW5bY

 

Music & Me (1973)
O seu terceiro álbum passou quase despercebido de todo mundo, muito provavelmente pelo excesso de baladas. Injustamente, o único destaque que o disco recebeu foi por conta de sua ótima faixa-título, mas há faixas muito interessantes aqui, como as belíssimas “Happy” e “Doggin’ Around”, a delicada “With a Child’s Heart”, uma espécie de “momento ABBA” na sutil “Up Again” e dois soul funky bem calibrados, “Euphoria” e “Johnny Raven”.

https://www.youtube.com/watch?v=FGVos0wRnNU

https://www.youtube.com/watch?v=PTNaoOdCPqU

https://www.youtube.com/watch?v=l6HMpwEfIgE

 

Forever, Michael (1975)
O quarto álbum solo, que precedeu o estouro de Off the Wall, traz algumas pequenas pérolas do cantor, então com dezesseis anos de idade, mesmo que as letras sejam bem bobinhas, como é o caso de “Cinderella, Stay Awhile”, das baladinhas “You Are There” e “Dear Michael”, além do bom soul “Take Me Back” e até de incursões pela disco music, como “Just a Little Bit of You”. A grande pérola é a linda e delicada “One Day in Your Life”. Ouça abaixo o disco na íntegra:

 

Como um de meus lemas é “conteúdo sempre!”, na próxima trarei um roteiro para você descobrir “tesouros escondidos” nos quatro primeiros discos do grupo que foi a plataforma para os vôos de Michael: o sensacional Jackson 5!

15 respostas

  1. Eu acho que é quem se diz fã, tem que procurar ouvir e conhecer todos os discos do artista. Gostei do post, álbuns fantásticos e cheios de clássicos.

  2. Regis, excelente texto como sempre. Eu conhecia todos os álbuns solo dele, acho inclusive que os escuto mais do que a fase pós Thriller. E concordo com tudo que foi escrito por você. Essa discografia anterior ao Thriller prova que ele , cercado por bons produtores e compositores alcançou um patamar diferenciado na música mundial. Uma pena que após o sucesso gigantesco do Thriller (um disco inclusive bem superestimado na minha opinião) a megalomania do Michael tenha falado mais alto e a deterioração do uma vez excelente cantor, tenha se tornado apenas uma colcha de retalhos daquilo que ele prometia ser…

    P.S: Ansioso pelo guia do Jackson 5.

    1. Caramba… pra que opinião própria quando você se apropria da opinião pessoal de Régis Tadeu e veste como sua própria opinião, não é? As palavras de Régis não são verdades absolutas e incontestáveis, meu amigo. Você pode discordar se for o caso fazê-lo.
      É por isso mesmo que um crítico deve ter muito bom senso ao julgar um artista, e saber os limites de sua opinião pessoal, da opinião imparcial de um crítico; pois há vários acéfalos por aí que sequer pensam com a própria cabeça e apenas regurgitam aquilo que ouvem – mesmo que no fundo não concordem.
      “Ora, um crítico musical está dizendo que esse cara é isso… Então esse cara é isso, é claro! Concordo. Amém”
      Michael Jackson não era só um cara “muito bem produzido”, essa afirmação é simplesmente ridícula, pra dizer o mínimo. “Artistas” – com aspas – bem produzidos há aos montes hoje em dia e nem por isso eles fazem algo relevante, seja musicalmente ou artisticamente.
      Eu já desisti de tentar ler uma crítica realmente séria sobre Michael Jackson vinda do Régis, pois ele não o leva a sério. Parece ser até algo pessoal – o que fica claro no início desse texto – e em todas as vezes que Michael é citado por ele. O que é no mínimo estranho, já que ele é um crítico musical, não comportamental. O que Michael Jackson foi pessoalmente – um cara muito foda, inclusive – não é o ponto aqui. O ponto é que ele foi um artista fascinante e não dá simplesmente pra ignorar isso. É estúpido!
      Um artista negro chegou no topo do mundo – e merecidamente! Por que não dá simplesmente pra respeitar isso?
      [Não quero aqui ser desrespeitosa com você, ou com o Régis, mas não posso poupar as palavras.]

      1. Não existe “opinião imparcial”. Se há uma opinião, ela deixa de ser imparcial. Sugiro que você procure em um dicionário o significado de ambas as palavras…

      2. Oi Meiriane, sinceramente não entendi sua revolta, com meu texto. A opinião do Regis Tadeu não é uma verdade absoluta, mas se eu cheguei até o site e resolvi ler o texto, significa que eu queria saber sobre ela. Acho o Michael um artista que se cercou de gente competente e conseguiu uma carreira bastante relevante na música, mas pra mim, todos os seus discos da chamada fase adulta dele, são extremamente irregulares e na MINHA opinião após o Dangerous, foi apenas ladeira abaixo, os discos são simplesmente medíocres!

        “Michael Jackson não era só um cara “muito bem produzido”, essa afirmação é simplesmente ridícula”

        “O ponto é que ele foi um artista fascinante e não dá simplesmente pra ignorar isso. É estúpido!”

        Minhas afirmações soam “ridículas” e minha ignorância com relação ao “fascínio” que você diz que ele exerce é estúpida, mostram que você não consegue a tal imparcialidade que você prega em suas palavras.

        Mas fã é fã, fazer o quê, não é?

  3. Oi, Regis! Já tinha lido esse texto antigamente e acho ele ótimo.
    Que bom que você irá fazer um texto sobre os Jackson 5 também, mas seria legal falar também das fases mais conhecidas dele (justamente as mais adultas). O que mais se vê não são pessoas que gostam do trabalho do Michael, mas apenas simpatizantes. Tem muita coisa legal na discografia dele (assim como também tem muita coisa ruim)

  4. De fato, Michael era um artista ímpar. Claro que isso foi devido a ele ter um talento extraordinário aliado a uma equipe altamente competente atuando por trás dele. Particularmente, depois de Thriller o seu trabalho foi caindo na qualidade e a megalomania foi tomando de conta. Nessa fase de discos, gosto muito dos 3 primeiros solo, o Forever, Michael já demonstrava um certo cansaço na fórmula de baladinhas inocentes e pueris, coisa que ele percebeu e tratou logo de chamar Quincy Jones pra produzir o Off the Wall.

  5. Regis, admiro sua inteligência, conhecimento e mais importante, sua sinceridade. Fala o que deve ser dito sem politicagem é covardia.Realmente essa fase do Michael é insuperável….

  6. Caro Regis, que tal fazer um post sobre a obra do saudoso Mr. Catra?
    Infelizmente sua morte pegou-nos a todos de surpresa, não dando nem tempo de você fazer sua homenagem enquanto ele esteve vivo… Mas sempre há tempo. Eu como um leitor assíduo de suas postagens, estou curioso para saber o que você iria dizer…

    1. A respeito dele só tenho a lamentar a sua morte. Foi um sujeito gente fina em todas as ocasiões em que nos encontramos nos bastidores do “Programa Raul Gil”.

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