Conheço alguns amigos que tem certo ‘nojinho’ de sons pesados. São capazes de passar semanas enjoados depois de ouvirem guitarras distorcidas, baixos pulsantes e baterias trovejantes. Tudo bem, eles continuam meus amigos, mas não dá para deixar de tirar um sarro desses patetas. Você também deve conhecer gente assim, que quase chega a vomitar em cima de seus livros de poesia francesa quando ouve um disco do Slayer. Mas há uma esperança…

Talvez as pessoas que possuam este tipo de aversão possam sentir tal característica de outra maneira pelo fato de que o conceito de “peso sonoro” já extrapolou as fronteiras do heavy metal. Quer um exemplo?

Para os meus amigos sensíveis acima, sempre dou como argumento para embasar a minha opinião um dos grandes – e injustamente ignorados – álbuns do ZZ TOP, La Futura, de 2012, um trabalho em que a banda voltou a exibir uma forte conexão sônica em relação ao seu passado – mais precisamente nos anos 70 –, mas optou também por carregar na timbragem “gorda” e encorpada dos instrumentos e, principalmente, na aplicação de uma atmosfera pesada, musicalmente falando, que permeia todo o disco.

Os solos e riffs de guitarra de Billy Gibbons estão mais ‘metálicos’ e concisos do que nunca e a bateria de Frank Beard voltou a soar como algo estritamente ‘orgânico’. A cadência deliciosamente arrastada de “I Gotsa Get Paid” ainda tem essa distorção extra em sua sonoridade como um todo, característica que se espalha ao longo das canções e que certamente tem o dedo de Rick Rubin, o produtor que assumiu o posto substituindo um velho parceiro do grupo, o veterano Bill Ham.

 

Ouvir o shuffle espertíssimo de “Charteuse” é tomar contato com uma cultura rítmica que, guardada as devidas proporções, tem para quem gosta de blues rock o mesmo significado que o samba para o brasileiro em geral. Também contagiantes são faixas como “Big Shiny Nine”, “Consumption”, “I Don’t Want Lose, Lose You” e “Heartache in Blue”, que são daquelas canções que não se pode deixar de ouvir na estrada durante uma viagem ensolarada.

 

 

 

 

 

Gibbons canta a linda balada “Over You” e com a voz embargada e coração despedaçado, passando por uma pior, como se fosse um Tom Waits sóbrio, mas prestes a sair por aí bebendo tequila em boteco de esquina e jogando bilhar sozinho. Por outro lado, ele mostra um pouco mais de esperança quando resolve imprimir um calor receptivo na linha de canto que permeia a boa “It’s Too Easy Mañana”. Se “Flyin’ Again” é uma das coisas mais ‘rollingstonianas’ que o trio texano já fez na carreira, “Have a Little Mercy” é daquelas canções que abraçam uma causa perdida para muita gente, que é fazer “som de macho” sem soar misógino.

 

 

 

 

É justamente o fato de La Futura ter passado despercebido no Brasil que faço questão de mostra-lo a você. Quem sabe o seu “nojinho” também desaparece…