Uma manhã com Miles Davis

Estou desde a manhã trabalhando em planilhas da rádio USP para envio de relação de músicas – com seus devidos compositores – de meus dois programas de rádio para o ECAD, um trabalho chato de pesquisa e coleta de informações. Só mesmo uma ótima trilha sonora poderia aliviar o peso dessa burocracia e ela está aqui ao meu lado há horas: ‘Round About Midnight, o lendário álbum de Miles Davis. É difícil acreditar que tamanha obra-prima tenha sido lançada em 1957, tanto pela extraordinária qualidade de gravação como pelos próprios temas reunidos no disco…

Contando com “O QUINTETO”, uma das mais absurdamente monumentais formações jazzísticas em todos os tempos – o saxofonista John Coltrane, o pianista Red Garland, o baixista Paul Chambers e o baterista “Philly Joe” Jones, além do próprio Miles, obviamente -, o disco é uma sucessão de temas tão espetaculares e sutis que me atrevo a pensar neste exato instante que talvez este seja um dos discos perfeito para servir de porta de entrada a quem não conhece ou jazz ou para idiotas que pensam que o gênero não passa de “música de corneteiro”.

A formação do quinteto estava azeitadíssima, já com dois anos de existência, calibrada pelas gravações em estúdio que fizeram em 1956 pelo selo Prestige – que renderam anos depois o lançamento de quatro álbuns: Cookin’ With the Miles Davis Quintet (1957), Relaxin’ With the Miles Davis Quintet (1958), Workin’ With the Miles Davis Quintet (1959), Steamin’ With the Miles Davis Quintet (1961) – e por centenas de shows, um atrás do outro, o que só aumentava ainda mais a química musical entre seus integrantes. Quando entraram em estúdio para gravar esse álbum, o primeiro de um então recente assinado contrato com a poderosa gravadora CBS, a máquina sonora estava tinindo…

A faixa-título, uma composição do pianista Thelonius Monk em parceria com Cootie Williams, ex-trompetista de lendária orquestra de Duke Ellington, já era um tema de primeira grandeza desde a gravação de Dizzy Gillespie em 1946. Só que Miles e seus comparsas pegaram a música – que eles já haviam mostrado ao vivo quando tocaram no tradicional Newport Jazz Festival em 1955, deixando a plateia inteiro de queixo caído – e a transformaram em algo tão sublime que ela soa como se tivesse sido criada momentos antes da gravação do disco em questão, com uma “pegada blues” estonteante.

 

“Ah-Leu-Cha”, de Charlie Parker, foi incorporada por Miles para registrar os tempos em que ele mesmo tocou com o genial saxofonista anos antes em Nova Iorque, em um combo que tinha como o bebop um dos combustíveis sonoros favoritos e que acabou influenciando uma de minhas músicas favoritas dentro do jazz, “Chasing the Bird”, do quinteto do trombonista J.J. Johnson. Como sou baterista e um admirador ferrenho de “Philly Joe” Jones, a maneira como ele conduziu a música e enxertou pequenos e certeiros solos ao longo da canção ainda hoje me deixa petrificado. O mesmo astral acontece em “Tadd’s Delight”, do compositor/arranjador Tadd Dameron, outra pequena preciosidade do bebop incluída no álbum.

 

Em “All of You”, um dos magistrais temas compostos por Cole Porter ao longo da carreira, recebeu de Miles e do restante do grupo um tratamento suave e relaxante, da mesma forma que fez na faixa seguinte, “Bye Bye Blackbird”. Apesar do choque que os fãs mais radicais sentiram por conta da inclusão de temas mais populares no disco, Miles fez o de sempre: ignorou os protestos e tocou o que quis e da maneira como bem entendeu. O resultado foi simplesmente sublime!

 

A última faixa, “Dear Old Stockholm”, composta pelo saxofonista Stan Getz, foi desconstruída por Miles por conta de uma série de quebradas e breaks, além de um longo e espetacular solo de Chambers no contrabaixo. A qualidade do áudio é tamanha que fiquei com a impressão que todo mundo estava no meu escritório, tocando ali na minha frente. Sério.

 

Agora que você leu o que escrevi acompanhando cada uma das faixas, faça o mesmo que venho fazendo desde o início da manhã de hoje: ouça este álbum antológico na íntegra, sem parar. Você não vai se arrepender…

https://www.youtube.com/watch?v=sCRjn79DL74

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