Prosseguindo com a iniciativa de fazer com que você apresente a obra de Eric Clapton a seus filhos que iniciei anteontem na semana de aniversário do guitarrista, hoje eu escrevo a respeito de um ótimo – e subestimado – exemplo de como ele como revitalizou o passado com classe e qualidade. Antes, tenho que contar uma pequena história a respeito de outro personagem…

Morto em 2013, JJ Cale nunca desfrutou do sucesso comercial que mereceu. Teve que se garantir com a idolatria de um público restrito – mas muito fiel – e, principalmente, com a profunda admiração que artistas muito mais famosos que ele devotavam à sua arte. Como foi justamente o caso de Clapton, que ajudou Cale a se tornar mundialmente conhecido quando gravou na década de 70 algumas de suas mais emblemáticas canções, como “After Midnight” e, claro, “Cocaine”, dando a elas uma personalidade tão marcante que muita gente pensa até hoje que as músicas são de autoria de Clapton.

A admiração do guitarrista que um dia foi chamado de “Deus” não parou por aí. Em 2006, Clapton arrastou Cale para um estúdio e a dupla gravou um álbum belíssimo, The Road to Escondido, que deu à dupla um Grammy, desbancando um monte de baboseiras pop da época, sempre agraciadas com esse prêmio por conta de suas vendagens e apelos com a molecada descerebrada. Para a maioria das pessoas, foi uma surpresa. Não para mim. E Clapton ainda botou o amigo para participar de um de seus mais recentes – e subestimados – álbuns, o ótimo Old Sock, lançado em 2013 e do qual falarei na próxima sexta-feira.

 

the breeze

Em 2014 foi lançado mais um tributo de Clapton ao falecido parceiro, que acabou passando meio despercebido frente à enxurrada de discos lançados naquela época: The Breeze (An Appreciation of JJ Cale), uma iguaria proposta pelo guitarrista e um timaço de amigos – Mark Knopfler, Willie Nelson, Tom Petty e John Mayer -, mais uma banda de apoio espetacular, formada pelo baixista Nathan East, os bateristas Jim Keltner e Jamie Oldaker, mais duas gerações de extraordinários guitarristas, representadas pelo veterano Albert Lee – o “Eric Clapton da country music” – e o jovem e talentosíssimo Derek Trucks, ex-Allman Brothers e hoje ao lado de sua esposa Susan Tedeschi na excepcional Tedeschi Trucks Band.

Sem abrir mão das principais características de Cale, como a sofisticação, o brilhantismo e a simplicidade que ele colocava em cada canção, Clapton e seus chapas revisitaram a obra do cara com uma sutileza cativante, evidenciando ainda mais o amálgama de rock, country, folk e jazz que sempre esteve presente no som do homenageado.

Tudo no disco funciona perfeitamente bem. A delicadeza que Clapton exibe em “Call Me the Breeze”, a reverência explícita de Knopfler em “Someday”, a sensibilidade de Mayer no ótimo solo em “Magnolia”, a candura de Willie Nelson em “Songbird”… É um desfile maravilhoso de canções sublimes e interpretações certeiras.

Podem me chamar de “tio roqueiro saudosista”. Não me importo. Enquanto eu tiver a chance de saudar os acertos que os “velhinhos” ainda são capazes de fazer, nenhum “hype mudéeerrrrnnnuuu” vai me impedir de celebrar o passado no presente e com um olho no futuro. Olhe para seus filhos e pense nisso…

 

 

 

 

https://youtube.com/watch?v=mnoU74NOoiM%3Flist%3DPLjS-ZkP7SXX1HuizQUh1LspnBk7RoxCNn