Ele foi um dos maiores tesouros que a literatura italiana produziu em toda a sua História – sim, com “H” maiúsculo. Filósofo e romancista, acreditava que escritores nunca deveriam dar aos leitores aquilo que queriam. Sua tarefa era mudar a percepção de vida que seus leitores tinham até então, seduzi-los e levá-los em direção a outros universos e, principalmente fornecer novas percepções a respeito de qualquer coisa ou realidade que nos cerca. Caramba, Umberto Eco conseguiu isso e de maneira irrepreensível…

A primeira vez que tive contato com a sua obra foi igual a de milhões de outras pessoas: devorando cada página de O Nome da Rosa, o primeiro livro dele lançado no Brasil e que rendeu um filme até que legal, estrelado pelo Sean Connery. Mortes misteriosas, luxúria, estudos medievais, crueldade, filosofia, a Bíblia analisada de um modo como ninguém havia feito até então… Já perdi a conta de quantas vezes reli essa obra prima.

Ainda não li a obra mais recente que nos deixou, Número Zero, mas pretendo fazer isso em breve, ainda mais porque aborda um assunto tenebroso para os dias atuais – o jornalismo a serviço de escusos interesses políticos – e porque, claro, tenho o maior interesse em saber o que pensava o grande mestre a respeito disso.

Ele era um fã ardoroso das “teorias da conspiração”, a ponto de criar várias delas em suas obras – como no extraordinário O Pêndulo de Foucault ­– com um nível de profundidade e requinte raramente visto. Para ele, a realidade era muito mais sombria do que imaginamos, no que ele esteve sempre certo, obviamente.

Outro tremendo acerto de suas palavras resultou em um ‘mimimi’ em escala global. Muita gente ficou puta da vida com ele por conta de uma observação inquestionável: “a internet dá voz a uma multidão de imbecis”. Assino embaixo. Deveria ser um horror para ele ter que conviver diariamente com a cretinice reinante no planeta. Tenho certeza que se ele morasse no Brasil, consideraria seriamente a hipótese de suicídio, já que nosso País tem uma das maiores populações de energúmenos a opinar a respeito de assuntos dos quais não faz a mínima ideia.

Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016. De lá para cá, a Humanidade se tornou bem mais burra e não dá sinais de reverter tal quadro de desgraça explícita. Azar o nosso.