Vamos parar de endeusar Ayrton Senna!

Muita gente que assistiu ao show do Judas Priest sábado passado aqui em São Paulo ficou emocionada com a homenagem que a banda fez a Ayrton Senna, projetando sua imagem no fundo do palco ao final de uma das canções. Não foram poucos que compararam a atitude simpática do grupo com o que fez Roger Waters nos telões de suas apresentações por aqui no mês passado. Aliás, diga-se de passagem, tal ‘comparação’ só prova o nível de retardamento mental que impera no povo brasileiro de modo quase generalizado…

Voltando ao assunto desse texto, eu ainda continuo sem entender o “endeusamento” que grande parte da população ainda endereça ao falecido piloto. É por conta disso que reproduzo abaixo o melhor texto que li a respeito dele, um cara que foi, acima de tudo, um ser humano como outro qualquer, só que com uma habilidade espetacular para guiar um carro de corrida.

Escrito pelo jornalista, Flávio Gomes – cujo blog pode ser acessado aqui – , que trabalhou durante muitos anos na cobertura da Fórmula 1 in loco, ou seja, acompanhando as corridas nas próprias pistas, o texto é um retrato que julgo bastante fiel a respeito de quem realmente foi Ayrton Senna e os motivos que levaram muita gente a considerá-lo – erroneamente – diga-se de passagem – como um “santo”. Leia com atenção e até o final:

Herói, mito, lenda, inesquecível, ídolo, mágico, inigualável, imbatível, dedicado, o melhor de todos, as manhãs de domingo, perdeu a graça, parei de ver, depois dele nunca mais.

Nos últimos 20 anos, um pouco mais por estes dias de proximidade com a data redonda, o nome de Ayrton Senna raramente foi dito sem que alguns desses adjetivos e expressões viessem colados nele — como se fosse ofensivo, ou reducionista, citá-lo sem agregar algo que o exaltasse para além do que era, um grande corredor. 

É compreensível. Resvala na obviedade dizer que Senna foi um sujeito especial. Não o único, porém. O esporte está cheio de heróis, mitos, mágicos, imbatíveis etc. É uma pena, porém, que a maioria de seus fãs/seguidores/devotos enxergue nele apenas essa figura mitológica, colocando tal elenco de virtudes reais ou imaginárias acima da maior de todas: suas qualidades como piloto.

A morte trágica e a imagem construída durante anos por uma mídia sedenta de ídolos ofuscaram um pouco aquilo que Senna melhor fazia. Se é verdade que Ayrton gostava dessa aura sobrenatural — e que se comportasse como tal, com frequentes arroubos alegóricos —, era no dia a dia de sua profissão que ele revelava seu grande talento; era no chão de box que Senna conseguia se livrar das embalagens que o vendiam como uma espécie de divindade para exercer com maestria seu ofício.

Piloto excepcional, perfeccionista, decidido, rápido e arrojado, é na admiração de seus pares — outros pilotos, engenheiros, técnicos, mecânicos, donos de equipe — que se encontra o real valor do brasileiro morto aos 34 anos num acidente em Imola. Um acidente que, ao que tudo indica, poderia ter sido evitado. E que, ao que tudo indica, teve o desfecho que teve por uma infelicidade brutal, que pode ser medida em centímetros — se a barra da suspensão atingisse o capacete um pouco acima da fresta da viseira, Ayrton sairia de seu carro com o pescoço doendo e puto da vida, pouco mais do que isso.

Senna era uma figura não muito amistosa, porque optou por colocar à frente de qualquer outra característica a competitividade. Ao longo dos anos, incorporou esse papel de tal forma que passou a ver quase todos ao seu redor como inimigos. Aqueles que rivalizavam com ele no talento, como Prost, Mansell, Piquet e Schumacher, não mereciam mais do que o ódio reprimido quando se encontravam na pista. Era jogo pesado, o tempo todo.

Por ter escolhido esse caminho, Senna, nos seus anos de F-1, nunca me pareceu uma pessoa feliz. Sorria raramente, e parecia ter vergonha de mostrar algum sinal de alegria natural. Sempre me passou a impressão de que encarava o relaxamento como uma fraqueza.

Falo do que vi e observei em quase sete anos de convivência exclusivamente nos autódromos, no ambiente que me interessava — o da F-1. Se ele era totalmente diferente fora dali, em sua casa de Angra, passeando de jet-ski, junto com a família, com as namoradas e os amigos, não era algo que me dizia respeito. Senna, no habitat que também era o que lhe interessava, era um cara teso, eletrificado. Essa era a única forma que ele acreditava ser compatível com seus objetivos sempre muito claros: ganhar corridas e campeonatos, ser o melhor de todos.

Outros pilotos — e atletas — conseguiram tanto quanto Senna, ou mais, sem ter de assumir uma personalidade de esfinge. Não faço juízo de valor, aqui. Era o jeito dele, não há nada de errado nisso. Mas é inegável que esse estado permanente de tensão e rigidez fazia dele um homem próximo do atormentado. Não era fácil ser Senna como Senna achava que deveria ser. Ele só se libertava quando sentava num carro. Aí, desconfio, encontrava a felicidade. Especialmente quando vencia.

Nos últimos dois anos e meio de carreira, 1992, 1993 e o início de 1994, foi difícil encontrar tal felicidade. Ayrton tinha uma urgência de vitórias. E não era bobo. Sabia que todo seu talento, que considerava superior ao dos demais — e aí não há nenhum traço de presunção, ele precisava pensar assim para sustentar o nível necessário de autoconfiança —, não era o suficiente para se impor como o melhor de todos. Ele já tivera nas mãos um equipamento que lhe dava essa condição. Quando deixou de ter, passou a conviver com a derrota. Isso, para Senna, era insuportável.

E foi assim em seus primeiros anos de F-1. Com uma diferença: ali, na Toleman e na Lotus, ele tinha consciência de que era uma questão de tempo até engatar uma carreira parecida com a que construiu na Inglaterra, na F-Ford e na F-3. Soube esperar e se preparar. Logo no primeiro GP em que conseguiu ver a bandeira quadriculada, em Kyalami, percebeu que para ser um vencedor a habilidade e a garra não bastavam. Moldou seu corpo às exigências da categoria e transformou-se num touro. Estabeleceu metas e foi atrás delas. Não se pode dizer que não conseguiu atingi-las.

Ocorre que Ayrton se sentia muito diferente dos outros, quase que um detentor exclusivo das qualidades que propagava com seus frequentes discursos repletos de clichês de autoajuda. O público no Brasil comprava esse pacote e adorava o tom épico que imprimia a cada vitória. Um GP não era um GP, mas uma epopeia. Um embate entre o Bem e o Mal. Um confronto entre a Virtude e a Infâmia. Tudo em maiúsculas. Um exagero. Senna era um exagerado, como cantava Cazuza.

Mas era legal vê-lo guiando. Abstraindo-se toda a patacoada que normalmente contamina julgamentos e embaça a visão, Senna era alguém que valia a pena acompanhar de perto. Dirigia de forma exuberante e era um esportista de primeiríssimo nível, alguém que sabia estar escrevendo um capítulo importante da história do esporte que escolheu.

Carregava nas tintas, claro. Talvez não fosse o bastante fazer uma volta alucinante em Mônaco e ser reconhecido como grande piloto por isso. Era preciso ir além para reforçar sua “diferença”, e então dizia que tinha entrado num túnel e viajado para outra dimensão. Ganhar em Suzuka depois de uma largada desastrosa, despencar lá para trás, se recuperar espetacularmente e conquistar o título era pouco. Ficaria mais sensacional se dissesse que tinha visto Deus numa das curvas da pista japonesa. Bater a imbatível Williams na chuva em Donington não se resumia a uma demonstração de incrível habilidade no molhado. Se fosse resultado de uma ajuda enviada diretamente do Firmamento, melhor ainda.

Senna acreditava nessas coisas? Provavelmente sim. Seus torcedores, certamente. Poles, vitórias e títulos ficavam ainda mais saborosos se viessem acompanhados de um túnel tridimensional aqui, um encontro com o Todo Poderoso ali, um milagre acolá. Ayrton não tinha vergonha de expor esse lado, digamos, ungido. Quem haveria de questioná-lo?

Nada disso, no entanto, funcionaria se ele não fosse o grande piloto que era. Imagine-se um cara que se classifica em 17° em Mônaco e diz que entrou num túnel infinito, sendo conduzido por uma mão invisível. Ou que larga miseravelmente em Suzuka, termina em 20° e garante que viu um velhinho barbudo de bata e cajado no fim da reta. Ou ainda que roda e atola na brita em Donington e ergue as mãos para os céus, de onde um clarão inexplicável o abençoou.

Seria considerado um doido ridículo.

Senna virou o que virou porque ganhava corridas e conquistava campeonatos. Porque durante sua trajetória na F-1, sempre buscou vitórias e não se conformava com menos do que isso. Era um atleta admirável por seu talento e obstinação.

E porque morreu de um jeito muito triste. Exageradamente triste.

 

2018-11-14T14:08:55+00:00

19 Comments

  1. Lieze Lotte Muniz Rodrigues 14 de novembro de 2018 at 16:28 - Reply

    Acabei de ler o texto que vc mencionou. Um texto primoroso, sobre Ayrton Senna. As palavras me veio aos meus olhos Caetano torcendo pelo Ayrton. O Brasil inteiro e talvez grande parte do mundo. Eu pessoalmente nunca fui amante de corridas de carros, cavalos, gente. etc.
    Mas o cara que escreveu tinha uma grande conhecimento do que estava dizendo. Endeusar um atleta de qualquer esporte é típico do ser humano.
    Parabéns amigo Regis
    Abrs
    Lieze

    • Regis Tadeu 15 de novembro de 2018 at 00:09 - Reply

      Obrigado, querida Lieze!

  2. Dennis R.C. 14 de novembro de 2018 at 16:53 - Reply

    Ótimo texto (mais um) do Flávio Gomes, com o qual concordo plenamente. Sem tirar o mérito do Senna – foi um piloto fenomenal -mas o brasileiro médio adora mesmo uma presepada.

    Eu sempre preferi o Piquet. Um piloto completo, totalmente raiz e com personalidade única. Humor ácido, sincero, sujeito inteligente, avesso à frescuras à mídia baba-ovo. Quando vejo ele falando paro pra ouvir.

    Abraço Régis.

  3. Urania 14 de novembro de 2018 at 17:56 - Reply

    Genial TODAS as observações feitas pelo Flávio Gomes. Eu sempre gostei muito de esportes e comecei a acompanhar muito cedo , porém nunca tive esse endeusamento por esse ou aquele brasileiro. Meu primeiro piloto foi Niki Lauda , depois Andrea de Cesaris, Mansell , Piquet e Proust. Senna e Schumacher. Estilos , épocas diferentes mas todos diferenciados.
    Apesar do texto ser extenso a frase que melhor traduz todo o conteúdo é : “Não era fácil ser Senna como Senna achava que deveria ser . ”
    Pessoas excepcionais em sua grande maioria tem um nível de auto exigência acima dos padrões reais. Algo além do humano só atribuído a divindades. Essa exigência corroe , machuca e violenta a alma. Vc é capaz de atingir o Nirvana com um dia de ” vitória” , porém a dor dos fracassos e os restantes dias corroem a alma de forma violenta.
    Tb tenho essas percepções do ” eu” interior do Ayrton. Apenas discordo que ” morreu de forma triste , exageradamente triste”. O dia anterior foi sim muito triste , outros acidentes, um falecimento, o clima da corrida estava tenso e carregado.
    Mas como o texto bem citou , acredito que ao sentar no cockpit ele era tomado sim por uma força maior, por algo que o tornava o melhor, o homem mais amado e feliz do mundo . Para nós foi muito triste , mas para ele , morreu como deveria ser , VIVENDO SEU MAIOR AMOR.

  4. Gabriel 14 de novembro de 2018 at 18:15 - Reply

    O texto é bem interessante, mas achei que faltou algo mais concreto na hora de contar como Senna via seus adversários, talvez contando algo que ele realmente fez. Mas mesmo assim, bom trabalho.

  5. Rei Pelé 15 de novembro de 2018 at 10:57 - Reply

    Texto incrível

  6. Marcel Carmo 15 de novembro de 2018 at 11:17 - Reply

    Acredito que somente os resultados que ele obtia dentro das pistas já o coloca no status de UM DOS MELHORES PILOTOS QUE JÁ EXISTIU.
    Independente se ele misturava manga com leite quando estava fora do carro.

    O resto é chororô pra ser do contra, e parecer inteligentinho!

    Sobre as comparações dos shows:
    Ocorreram em datas próximas, com artistas renomados e ambos interagiram com o público com figuras notáveis do país.
    Um, achou que ia arrasar mas só conseguiu uma grande e constrangedora vaia ao mostrar uma lista estranhamente seletiva de governos que ele considera neo fascista, além de uma visão “bem gringa” sobre a política brasileira.

    O outro, bem… sou suspeito, afinal amo Priest e sempre achei Pink Floid uma chatice.

    • Regis Tadeu 15 de novembro de 2018 at 12:18 - Reply

      Marcel, o simples fato de você não ter percebido que em nenhum momento a habilidade do Senna como piloto ter sido questionada faz com que eu recomende que você se matricule em algum curso de interpretação de textos. Quem sabe assim você deixe de chamar de ‘do contra’ e ‘metido a inteligentinho’ aqueles que discordam de seu pensamento. Que é bem raso, diga-se de passagem…
      Passar bem.

    • Vano Aguiar 15 de novembro de 2018 at 14:49 - Reply

      quem é do contra e quer parecer inteligentinho é você,seu texto é bem pobre em argumentos……tenho minhas duvidas se você leu a matéria toda…..enfim…..fazer o que?! os “novos” tempos são assim mesmo….

    • Matheus 19 de novembro de 2018 at 13:09 - Reply

      Olha a psicodelia argumentativa do indivíduo. Para desmerecer uma história que não repete o ato de englobar oralmente o saco escrotal do Senna ele recorre a livre associação de ideias numa espécie de transe místico.

    • Fabio Fernandes 19 de novembro de 2018 at 14:57 - Reply

      Mas em nenhum momento a habilidade dele foi posta em dúvida, somente o endeusamento exacerbado. Ou você não leu ou não entendeu nada; fico com as duas alternativas. E procure grafar corretamente o nome “Pink Floyd”.

  7. Sergio Sakamoto 15 de novembro de 2018 at 19:08 - Reply

    Uma pena ver que textos como este, que denigrem o ser humano, tenha tanta audiência. Ayrton Senna foi falho como todo ser humano.Mas vamos relembrar que ele bateu de frente sozinho com a FIA, um dia antes de sua morte, por conta do acidente gravíssimo no dia anterior.Senna avisou que aquela pista era perigosa para preservar a vida dos colegas, e ironicamente, foi ele quem morreu. E é muito fácil para este pseudojornalista se atentar às falhas do Ayrton, porém vamos relembrar quantas crianças o instituto Ayrton Senna ajuda até hoje, e também vamos lembrar das gigantescasuas doações que Viviane Senna faz todo ano ao Teleton, graças à visibilidade que seu irmão teve. Mas vamos parar de endeusar o Ayrton. Talvez devamos começar a endeusar músicos fracassados, ou apresentadores de TV que exploram crianças em troca de audiência. ….Os tempos mudaram, e talvez aqueles que criticam o Ayrton ao invés das banalidades que passam na TV aberta nos finais de semana, sejam os responsáveis por criar uma geração que prefere “pegar o seu branquinho e sair de mansinho “.

    • Regis Tadeu 15 de novembro de 2018 at 19:22 - Reply

      Vamos parar de “endeusar” todo mundo, Sergio. É esta a mensagem que você claramente não entendeu porque tem sérios problemas de interpretação de textos. Aí já não é mais problema meu…

      • Sergio Sakamoto 15 de novembro de 2018 at 20:46 - Reply

        Eu entendi muito bem o conteúdo esdrúxulo do texto.Não endeuso ninguém. Apenas admiro aqueles que fazem algo pela humanidade, e não admiro psudojornalistas que não respeitam uma pessoa morta, fazendo matérias pobres de espírito, que mais parecem redações do ENEM. Se você não entende sarcasmo, aí já não é problema meu.

  8. Leandro Moura 16 de novembro de 2018 at 00:05 - Reply

    Regis, gostaria de ter lido o texto, mas como tenho fotofobia, não consigo ficar lendo mais do que alguns segundos nesse fundo preto. Quando volto a vista para outro lado, é como um soco no olho, e a visão fica toda manchada. Sugiro que altere o fundo preto para uma cor mais clara pois várias pessoas sofrem desse problema. Abraços!

  9. MAJOR 16 de novembro de 2018 at 12:27 - Reply

    O layout da página seria bem melhor mesmo com o fundo branco e a homenagem do JUDAS PRIEST no telão foi em um trecho da música Freewheel Burning e que teve tudo a ver.

  10. Fabio Fernandes 19 de novembro de 2018 at 15:04 - Reply

    Prezado Regis, a mensagem do texto é bem óbvia, mas é estarrecedor como muita gente não entendeu nada. Em nenhum momento a habilidade dele foi posta em dúvida, somente o endeusamento sobrenatural é que está sendo criticado, isso à qualquer indivíduo, não só o Ayrton Senna. Muito simples de entender, texto excelente, assunto interessantíssimo; pena que sempre haverá alguém para perturbar, criticar o que nem leu, etc…

    • Regis Tadeu 19 de novembro de 2018 at 20:42 - Reply

      O que mais tem hoje em dia é “analfabeto funcional”: a pessoa até sabe ler, mas entende porra nenhuma do que está escrito…

  11. Alexandre Rodrigues Alves 21 de novembro de 2018 at 01:10 - Reply

    Senna se aproveitou da extrema condescendência do tratamento que tinha da Globo (principalmente se valendo da amizade que tinha com os 2 que transmitem as corridas para cá) e do fato do Brasil viver uma crise na Seleção Brasileira de futebol. O espaço de ídolo estava “vago” no país e ele soube ser vendido dessa forma.
    É evidente que, para ser ídolo, ele precisava ser vencedor e isso, como foi bem colocado no texto do Flávio Gomes, aconteceu. Sem dúvida ele é, no mínimo, um dos 10 melhores pilotos da F-1 em todos os tempos. Seu talento na pista é indiscutível. Porém, foi construída uma aura em torno dele que, de fato, chega a ser desagradável.
    Endeusar alguém é, a meu ver, uma fuga, uma transferência de afeto desmedida, feita por pessoas que precisa de alguém em quem se espelhar. Todo fanatismo exagerado é ruim e, na média, o que acontece com o Senna é um exemplo claro disso.

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