Nenhum radialista foi o responsável pelo lançamento de tanta gente do universo sertanejo DE VERDADE como ele. Tenho lá minhas dúvidas se Tonico & Tinoco, Milionário & José Rico, Pena Branca & Xavantinho, Sérgio Reis e até mesmo Chitãozinho & Xororó teriam se tornado o sucesso que foram no passado se não fossem pelas músicas que ele tocava em seu programa, independente da emissora de rádio para a qual estivesse trabalhando: Cometa, Difusora de Guarulhos (SP), Capital ou Record. Em um tempo em que o rádio tinha uma importância fundamental na vida de TODAS as pessoas, Zé Béttio foi o “Imperador Sertanejo”.

Ele era um sanfoneiro dos bons. Quando jovem, montou o trio Sertanejos Alegres e saiu se apresentando em tudo quanto era bar, circo, praça e até mesmo “lupanários” no interior de São Paulo e Paraná que aparecessem pela frente. Foi então que percebeu que não iria a lugar algum se não se apresentasse no rádio, que era a maior vitrine artística daqueles tempos, com seus concursos e apresentações especiais. Chegou até a montar o Zé Béttio & Seu Conjunto só para tentar ganhar alguma coisa com aquele tipo de exposição. , que se apresentava em concursos de rádios, a grande vitrine artística da época. Foi então o acaso mudou a sua vida e o colocou na frente de um microfone, mas não para tocar e cantar…

Lá estava ele na rádio Difusora de Guarulhos (SP), tentando se inscrever em um concurso sertanejo, quando o locutor de uma propaganda – ou anúncio publicitário, se preferir – faltou. Desesperado, o produtor com quem Zé Béttio conversava pediu para que ele “quebrasse um galho” em troca da inscrição. Então lá foi o Zé para a frente do microfone. Com uma linguagem simplérrima e carregada com o sotaque caipira que ele não abandonava, ele não só deu o recado, mas foi imediatamente contratado para ser o novo locutor da emissora.

Sua conversa com os ouvintes se tornou uma referência para todo mundo que surgiu depois dele como radialista. Carismático como poucos, ele tinha um papo simples e direto, alto astral e sem frescuras, parecia transmitir o cheiro da terra molhada pelas ondas radiofônicas. Isso sem contar a enxurrada de canções sertanejas legítimas, de raiz, que mostrava diariamente a quem sintonizasse seus programas. Milhões de ouvintes cresceram ouvindo toda aquela formação musical que ele propiciava diariamente a partir das cinco da manhã, quando soltava dois de seus mais famosos bordões: “gordo, ô gordo” e “acorda, joga água nele”. Era hilário!

 

Depois de décadas reinando nas “AMs da vida”, viu o surgimento das emissoras FMs dominarem a atenção das novas gerações. Mesmo assim, não apenas manteve o seu público cativo, como conseguiu a proeza de capturar os ouvidos de uma grande parcela da molecada que morava e trabalhava no campo. Se você perguntar a qualquer dupla sertaneja DE VERDADE a respeito de Zé Bettio e a resposta for “nunca ouvi o programa dele”, tenha a certeza de que está diante de seres extraterrestes disfarçados…

Zé Béttio tinha se aposentado em 2009, aos 81 anos. Em 2016, sofreu um AVC, do qual tinha se recuperado razoavelmente bem. Levava uma vida tranquila, mesmo que com pequeninas sequelas. Morreu ontem, aos 92 anos. Todos os microfones de rádio no Brasil também estão de luto…