Quando ele morreu aos 87 anos em 2015, lamentei a sua morte quase da mesma maneira como fiz ao ler as notícias a respeito disto. Compositor dos melhores dentro do “universo caipira”, Zé do Rancho – cujo nome de batismo era João Izidoro Pereira – não mereceu ser lembrado apenas como o “avô da Sandy e do Júnior”. Um artista de sua importância foi muito mais do que isso.

Infelizmente, os detalhes de sua brilhante trajetória ficaram esquecidos em um País que costuma negligenciar os artistas do passado. Seu legado é solenemente ignorado por quem vive às custas desse pavoroso “sertanejo universitário” que empesteia o espaço vazio existente dentro da calota craniana das plateias que só prestam atenção em músicas simplesmente abomináveis.

Zé do Rancho, ao lado de seu grande parceiro, Zé do Pinho, com quem formou uma das mais antigas duplas sertanejas do Brasil, foi um exemplo de como era possível trazer o sentimento do campo para as grandes cidades por intermédios de canções tão simples quanto geniais em termos de poética e, surpreendentemente, de harmonias e melodias tocadas com incrível destreza para os padrões do gênero.

Nunca saiu por muito tempo de sua cidade, São José do Rio Preto (SP), mesmo depois de ter vindo para São Paulo em 1954, a convite da Rádio Tupi, para substituir o já enfermo Caboclinho no trio ao lado de Serrinha e Rielinho. Sempre dava um jeito de voltar para lá. Nasceu e morreu no mesmo lugar que o viu crescer como engraxate e ajudante de feira livre, nas ruas que davam acesso aos inúmeros circos nos quais trabalhou em pequenas peças de teatro para crianças e, principalmente, cantando. Sabia que, em 1950, ele já tocava guitarra elétrica na mais famosa atração musical da cidade de Tupã (SP) e arredores, a Orquestra Nelson? Pois é, ele foi pioneiro até nisso…

Foi tal bagagem que o ajudou a se transformar em um tremendo instrumentista, principalmente tendo um violão, uma viola e até mesmo um cavaquinho nas mãos. Com essas “ferramentas”, Zé do Rancho gravou um monte de LPs de artistas famosos como Vicente Celestino, Sérgio Reis e as duplas Léo Canhoto & Robertinho e Tonico & Tinoco. Como avô afetuoso que era, emprestou dois de seus grandes sucessos do passado, “Maria Chiquinha” e “Abre a Porta, Mariquinha” – que ele cantava com a mulher, Mariazinha, nos anos 70 – para que os netos pudessem decolar no início da carreira.

Abaixo, selecionei alguns exemplos da exuberância rústica deste ótimo instrumentista, compositor e cantor: