Ziraldo – Saudades de uma Infância Digna

Nós ficamos sabendo que o Ziraldo finalmente descansou aos 91 anos de idade, sábado passado. Caso você não saiba, ele vinha tendo um terrível sofrimento físico há muito tempo. E quando a gente mergulha na vastíssima odisseia artística do Ziraldo, e eu tenho certeza que muita gente vai fazer isso agora que ele morreu, você tem uma ideia. Procure conhecer os desenhos que ele fez de todos os mascotes dos principais times de futebol do Brasil, todos incríveis, incluindo o meu São Paulo Futebol Clube. Mas enfim, quando você mergulha no trabalho dele, todo mundo se depara não apenas com a obra de um dos maiores cartunistas da história do Brasil, mas com uma figura importantíssima da própria história do Brasil, que transcendeu as fronteiras do mero caricaturismo para entrar num universo em que a crítica social e a reflexão sobre a infância e a juventude se entrelaçaram de uma forma absolutamente magistral.

Muito além das páginas coloridas ou em preto e branco, não importa, o Ziraldo fez da sua vida um testemunho absolutamente incrível da luta contra as amarras da ditadura, e ele se transformou numa espécie de luz no caminho das novas gerações, incluindo a minha geração. No meu caso específico, poucas coisas foram tão elucidativas para a minha formação como adulto do que a leitura do Pasquim, que era o jornal do qual ele foi fundador. E foi justamente por causa desse jornal que ele, assim como aconteceu com muitos artistas, passou por muitos perrengues com os governos militares, e os seus sensores implacáveis, a ponto inclusive dele ter sido preso em três ocasiões, por causa das suas charges.

Você pode imaginar uma barbaridade como essa, ser preso por causa de desenhos? Em todos os meandros da obra do Ziraldo, ele destilou críticas incisivas que refletiram todas as nuances de uma sociedade em ebulição a partir dos anos 60. Os traços dele, que em muitas ocasiões eram muito mordazes, desnudam as contradições de uma época marcada pela censura e marcada pela repressão. E a firme posição dele contra a ditadura nos anos 60, nos anos 70, ecoou justamente por meio das obras dele, e essas obras se erguiam como um símbolo de resistência no meio exatamente daquela opressão daqueles tempos.

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