Como você já sabe, tenho alguns amigos que considero praticamente como “irmãos”. Um deles é Ronaldo Martins, que estreou com uma interessante matéria a respeito do surgimento do lendário clube CBGB’s, que você pode ler aqui . Ele enviou mais um texto bem interessante a respeito da formação de um gosto pessoal, um artigo que certamente vai fazer você refletir. Leia com atenção!

Ao pesquisar para escrever este artigo, vi que seria obrigado a quebrar uma regra e encarar um medo: escrever em primeira pessoa. Sempre me soa pretensioso um texto em uma conjugação de alguém que não é autoridade no assunto abordado, a ponto de as pessoas buscarem saber a opinião do autor especificamente.

Não sou autoridade em Psicologia, Antropologia ou Sociologia. Tenho uma boa formação musical, mas muitíssimo longe de ser um expert. Porém, como espero deixar claro nas linhas a seguir, não teria como falar a respeito de formação do gosto musical sem compartilhar algumas experiências, até mesmo para que você, caro leitor, busque dentro de si as memórias dessas mesmas fases e relembre os sentimentos e ocasiões que levaram você a apreciar o que ouve hoje.

Para começar, vamos estabelecer que a formação do gosto musical passa longe de ser um processo exclusivamente individual. Ele é influenciado pelo meio e por todo o contexto sócio/econômico em que vivemos. Mídia, rádios e gravadoras já tiveram influências muito maiores naquilo que ouvimos nos tempos em que o chamado “capital fonográfico” ainda exercia grande influência. Hoje, o acesso é tão simples e fácil que as gravadoras deixaram de ter tanta força, tornando-se até um fator secundário.

O gosto ou apreço por algo se divide em dois tipos: espontâneo e refletido. O primeiro é autoexplicativo: é adquirido por familiaridade, sem precisar pensar e/ou pesquisar. Gostamos e pronto. O segundo é adquirido pela busca de informação, correlação com o meio social, nossos valores e preconceitos.

Estabelecido o conceito acima, podemos afirmar categoricamente que nosso gosto musical começa a se formar, de acordo com pesquisas já publicadas, dentro do ventre materno. Quem não se lembra do frenesi de uns anos atrás em que quase toda mãe queria colocar música clássica ou versões instrumentais de Beatles e outros para tocar perto da barriga, na esperança de acalmar o bebê e ajudar em seu desenvolvimento? Mas não é bem assim que funciona…

Pausa para um pequeno aviso: não pretendo esgotar o tema e nem fazer um estudo acadêmico aqui, e sim dar uma pincelada para atiçar a curiosidade de vocês. Portanto, muito do que escrevi aqui são generalizações. Relaxe…

Os dois primeiros sons que reconhecemos e associamos a sensações agradáveis são a batida do coração e a voz de nossas mães. Depois que nosso cérebro em formação faz tal associação, o reconhecimento de padrões sonoros começa a se desenvolver. Nascemos e somos ninados pela mesma voz que nos tranquilizava no útero. Aquela melodia agradável é aceita com familiaridade e gostamos daquele som. Daí em diante, somos expostos tanto a canções infantis quanto ao que nossos pais ouvem e ao que os próximos a nós ouvem, seja na escolinha, na creche, no rádio tocando durante o dia, seja onde for. E tudo isso vai gerando familiaridade.

Eu, por exemplo, tenho vívida lembrança de ouvir Beatles, Roberto Carlos, Johnny Rivers, Elvis e afins no carro da minha mãe indo para todo lugar. Isso plantou no meu cérebro a familiaridade com o padrão sonoro do rock e as sensações agradáveis proporcionadas me influenciaram mais tarde quando, na adolescência, descobri o rock que meus pais não ouviam. Isso é caracterizado como costume que, junto com a familiaridade, é um dos elementos fundamentais da formação do gosto musical.

É durante a adolescência, quando buscamos e lutamos pela nossa identidade e vontade de pertencer a um grupo social que o terceiro elemento da formação entra em ação: a disposição. Nessa fase confusa da vida, vai “ganhar o jogo” que encontrar maior ressonância no sentimento dominante dentro de nós nessa: raiva, melancolia, alegria… O lado dominante da nossa personalidade vai ditar para onde iremos, assim como o grupo ao qual pertencemos ou queremos pertencer.

Lembro que, saindo da pré-adolescência, eu ouvia o que estivesse rolando, não me importava o gênero ou estilo. Na época, o Information Society que rolava nas festinhas era o que eu mais curtia, até que ouvi o Kiss. Aquele som calou de uma forma tão profunda dentro de mim que queria mais, virou um vício. Um amigo me apresentou Dio e Black Sabbath, outro apresentou Helloween e eu não voltei mais…

A disposição pode ser consciente quando queremos gostar daquilo que estamos ouvindo e acabamos nos convencendo de que aquilo é bom, pois estamos querendo nos afirmar e mostrar nossa personalidade. Ou pode ser inconsciente, mais ligada ao lado negativo, quando você não gosta e pronto.

Por isso, a pessoa que quer ser encarada como cabeça, descolada e culta tem grandes possibilidades de adentrar ao universo da MPB, assim como quem quer se rebelar ou expressar certa agressividade muito provavelmente vai mergulhar no heavy metal e/ou no punk. Sim, isso é uma generalização, mas olhe para trás e veja se não foi mais ou menos assim que aconteceu com você aos 13/14 anos. Você quer se enturmar, pertencer a um grupo e alguma coisa acaba se identificando com você.

Meus amigos eram todos da “galera do poperô”, e iam às matinês de clubes e casas noturnas. Se você quisesse dar uns beijos, tinha que ir. Eu ia, mas como odiava tudo aquilo! Era uma briga entre meus hormônios querendo “ficar” com as meninas e meus ouvidos querendo voltar pra casa pra botar meu CD novo do Metallica no talo.

Nesse meio tempo namorei, “fiquei” e, entre idas e vindas, encontrei um novo amor: o baixo elétrico. E isso me leva a falar do último elemento da formação do gosto musical: a erudição.       Calma, não torça o nariz…

Você já ouviu falar daqueles projetos em comunidades carentes que vão ensinar instrumentos eruditos às crianças? O Ação Social Pela Música é um ótimo exemplo – veja aqui .

Pois bem, não é segredo que, no contexto sócio econômico de uma comunidade carente, teremos o predomínio do samba, do funk e outros. Quanto mais SIMPLES for a música, maior penetração ela tem. Por que isso?

Normalmente, isso ocorre porque essas pessoas não tiveram acesso a uma educação de nível elevado e só ouviram isso a vida toda por todos os lados (costume/familiaridade/disposição consciente). O cérebro não tem nenhuma familiaridade com nada mais complexo que esse padrão e acaba rejeitando o resto. Então, chega uma ONG como essa e estimula crianças e adolescentes a tentarem algo novo.

Ora, estamos aqui na fase da curiosidade e da descoberta. Ouve-se algo novo, com um tutor explicando como funciona, colocando em suas mãos os meios para reproduzir aquilo e… BUM! De cada dez jovens que entram no projeto, saem pelo menos quatro musicistas. A erudição é um caminho sem volta. Eu mesmo, conforme me desenvolvia no estudo musical, expandi do rock e metal básico para gêneros mais complexos, como o jazz. Quando estudei canto lírico, apaixonei-me pela ópera, amor que carrego até hoje. Olhe para seus amigos com estudo musical e perceba como o gosto deles mudou conforme foram aprendendo e se aperfeiçoando.

Espero que você não me considere pedante por ter escrito em primeira pessoa quando você ainda nem me conhece direito, e sim que tenha ficado claro as razões pelas quais tanta gente gosta de determinado tipo de som que você odeia e vice-versa. Sabendo que quanto mais estudar, mais saberá apreciar o que ouve e abrirá novos horizontes, tomara que você corra em busca desse mundo musical maravilhoso o mais rápido possível!