A verdadeira história do Black Sabbath

livro Black sabbath

Fiquei muito feliz por causa da receptividade alcançada pelo texto que escrevi a respeito dos 50 anos do lançamento do lendário álbum de estreia do Black Sabbath. E ainda mais pelo fato de que muita molecada escreveu agradecendo pela “dica”. Dá uma esperança para o futuro. E é justamente para a molecada e para você que adora a banda , mas sabe pouco a respeito da tumultuada carreira dos caras, que o texto abaixo vai servir como um guia, juntamente com um dos vídeos lá do meu canal no You Tube dentro da série “Aposto que Você Não Sabe…” – que você pode assistir aqui .

Antes, tenho que alertar a respeito de uma velha máxima que quase sempre é verdadeira: tome cuidado ao conhecer os seus ídolos, pois você pode se decepcionar para sempre. Em tempos em que ser fã, hoje em dia, é agir como se retardamento mental e histeria fossem uma coisa só, é preciso ter muito cuidado caso você resolva abordar alguém que considera “artista”. Pode apostar que, dependendo da circunstância e do momento de tal encontro, a aura de semidivindade que você enxerga na pessoa se transforme rapidamente em enxofre…

Graças a Deus, nunca tive este ímpeto de fã. Adoro uma série imensa de artistas e bandas, ouço ainda hoje os discos que ouvia em minha adolescência com o mesmíssimo prazer, mas, ao mesmo tempo, sei reconhecer quando alguém deste “panteão” pessoal pisa na bola, seja em termos artísticos ou na hora de posicionar frente a algum assunto importante.

É por isto ler a biografia do Black Sabbath – uma de minhas bandas favoritas em todos os tempos! –, escrita pelo ótimo jornalista britânico Mick Wall, ex-editor da excepcional revista Classic Rock, e lançada pela Editora Globo aqui no Brasil, foi um processo saboroso e incômodo ao mesmo tempo. Se fica claro nas paginas do livro que a música do quarteto de Birmingham influenciou todas as gerações posteriores de jovens que se meteram a fazer rock –e isto vale até os dias atuais -, também é inegável que a banda sempre teve um elemento a mais em sua formação, que não era vista em cima do palco e nas fotos promocionais: a cocaína.

Wall, que tem outros livros lançados no mercado nacional, como Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, Metallica: A Biografia AC/DC: A Biografia – a respeito da qual escrevi aqui -, é daqueles jornalistas/escritores que esmiúçam as histórias a ponto de trazer detalhes escavados da intimidade de cada biografado que fazem todo o sentido para explicar a trajetória de cada um. No caso do Black Sabbath, tudo isso fica claro para mostrar como sucesso e fracasso convivem como irmãos xifópagos unidos pelo ventre. E em ambos os momentos, ela estava lá: a cocaína. Aos montes, em quantidades nababescas. O tempo todo. E quando digo “todo”, é todo mesmo.

Os inúmeros detalhes da história contada por Wall revelam que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward eram apenas quatro zé manés que, de uma hora para a outra, viram o som que faziam se transformar em um monstro incontrolável, para o bem e para o mal. Mesmo com o estrondoso sucesso que obtiveram, os quatro jamais tiveram um nível mínimo de autoconfiança.

O tempo todo fui jogado, como leitor, em uma sucessão de sonhos e pesadelos regados a todo tipo de excesso que você possa imaginar. A explicação de como Iommi criou um som único por causa da perda de dois dedos da mão direita em uma prensa industrial é algo tão absurdo quanto sensacional para o nascimento do heavy metal. O choque de realidade causado pela descrição de Ward como um “bobo da corte” dentro da banda ao longo de sua história é de chorar de pena pelo coitado. O ego do guitarrista, inflado às raias do infinito pelo Everest de cocaína que ele cheirou, chega ser revoltante de tão patético. A patetice retardada de Ozzy ao longo de sua careira com a banda e em sua carreira solo é de deixar boquiaberto o mais devotado fã.

Todas as formações que a banda teve ao longo de mais de meio século de carreira são abordadas com histórias de bastidores que explicam porque o Sabbath  mergulhou em um declínio inaceitável depois que Ronnie James Dio – que havia substituído Ozzy e deu à banda dois álbuns de estúdio monumentais, Heaven and Hell e Mob Rules – foi mandado embora durante as mixagens do álbum ao vivo Live Evil, tendo reencontrado um mínimo de dignidade quando ele aceitou retornar, primeiro para gravar o ótimo Dehumanizer e depois voltar a tocar e gravar sob o nome Heaven and Hell – a marca “Black Sabbath” há muitos anos pertence a Sharon Osbourne. E a maneira como ela conseguiu isto é absolutamente inacreditável – não vou contar para não estragar a surpresa de quem vai ler a obra. Aliás, a mulher/empresária de Ozzy exerce um papel fundamental nesta biografia. Seu maquiavelismo, fundido em um bloco em que genialidade, perspicácia, altivez e ódio, faz com que ela seja um personagem fascinante.

As confusões com empresários, que roubaram todos os direitos autorais que a banda tinha em relação às canções que criaram, é um dos momentos mais veementes da verdadeira natureza contábil e administrativa que envolve toda banda que faz sucesso. E neste sentido, o Black Sabbath sempre foi um desastre financeiro.

O fato de Wall ter trabalhado diretamente com a banda como assessor de imprensa o fez tomar contato com meandros pouco conhecidos dos bastidores, como a surpreendente escolha de Ian Gillan para gravar o álbum Born Again, um dos capítulos mais incríveis e deprimentes da biografia do grupo – também não vou contar mais nada para não estragar a surpresa.

Black Sabbath – A Biografia vai até os dias da turnê do último disco de estúdio, 13. Sim, há toda uma explicação dos motivos que levaram Ward a não se juntar aos outros três e ‘melar’ a tal “reunion”, a séria doença de Iommi e tudo mais.

Só tenho uma coisa a escrever: que livro sensacional!

10 respostas

  1. Só vou dizer isso: Vou comprar hoje! Mais uma vez, um texto de encher os olhos. Abração, Régis.

    Posso te fazer uma pergunta? Qual teu disco preferido do Sabbath sem Ozzy ou Dio?

    1. Justiça seja feita. A fase do Black Sabbath após o Born Again era pra ser a carreira solo de Tony Iommi. Já no primeiro disco dessa fase, o Seventh Star, a gravadora exigiu que saísse “Black Sabbath featuring Toni Iommi”. O guitarrista não queria o nome Black Sabbath. Apesar de em alguns momentos dessa fase termos a presença de Geezer Butler na banda, é dificil considera-la Black Sabbath. Se fossem discos da carreira solo de Toni Iommi, talvez tivessem um melhor reconhecimento e não carregariam um peso nas costas !!!

  2. Li este texto a uns 4 ou 5 anos atrás, comprei o livro, li 4 vezes.

    Uma banda que amava, fiquei viciado.

    Para mim a melhor banda de todos os tempos.

    Obrigado pela dica, tio Regis!

  3. Excelente, Regis! Você conhece a biografia da banda escrita pelo Joel McIver? É muito boa também é bem completa, inclusive com comentários sobre todas as músicas da banda. A edição brasileira é bem caprichada e tem prefácio de Andreas Kisser. Abracos

  4. Ao contrário de bandas que gostava muito como Led Zeppelin e Deep Purple, com as quais era considerada das mais influentes do Heavy Metal, o Black Sabbath ainda tem vigor por conta de trabalho mais, ou menos recente e espetacular, turnês empolgantes, o que as outras bandas citadas ficaram no passado distante, principalmente no setlist. Ozzy também é o vocalista em carreira solo com mais trabalhos marcantes, ao contrário dos vocalistas das outras e que sequer conseguem cantar como outrora. A longevidade do Sabbath fez as músicas antigas ganharem mais vida e não enjoarem como aconteceu com as outras bandas, para mim. Então, essa biografia se torna super interessante junto com a de AC-DC, outra banda com vitalidade e que tenho expectativa quanto a trabalho novo. Long Live to Rock And Roll.

  5. Boa noite, Regis,

    Ótima dica! Comprei esse junto com outras biografias escritas pelo Mick Wall na Bienal do livro aqui no Rio e comecei a ler essa semana depois de ler as do Lemmy e do ACDC. Na fila o do Led Zeppelin. Mick Wall escreve muito bem e tem a credibilidade de quem conviveu com os biografados por muito tempo.
    Abraço

  6. Oi Régis, li antes de acabar o ano a biografia do Metallica, também escrita pelo Mick Wall. Ele escreve bem demais – sou fã veterano da banda (comecei no Black Album) e Wall conseguiu com sua escrita, entre outras coisas, me fazer até soltar uma involuntária risada do acidente que vitimou Cliff Burton, quando descreve a tentativa de resgate. Estou atrás da biografia do Guns N’ Roses e mesmo não sendo muito fã do Black Sabbath, vou ler também a biografia da banda.

  7. A biografia mais completa da Black Sabath é a BLACK SABATH – Destruição Desencadeada – A história completa, do Martin Popoff, da editora Dark Side books, 2013. Edição primorosa, já fora de catálogo, hoje só uma edição no Mercado Livre por R$ 350! No Estante Virtual ´s possível achar duas à venda na data de hohe ( 16/07/20 ) aos preços salgados de R$ 350 e R$ 500! Eu tenho uma edição dessas, um dia andando pela praça do sebo no centro do Recife, onde moro, vi uma e comprei por R$ 30 ( novinha! ) Qual não foi minha surpresa ao ver o preço dela no ML! Contudo anunciei por R$ 250 no ML e esperei… Duas semanas depois ( hoje, portanto ) um sujeito compreou, mas quer saber…? Vou cancelar e manter ela na minha coleção de biografias, sabe porquê ? Porque R$ 250 pode parecer muito, mas depois você gasta e depois, nem o livro nem dinheiro… E eu não devo subestimar a sorte de ter achado um livro tão interessante e raro, num preço que pude comprar. Não vou vender.

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