Anteontem foi aniversário da Adele. Até aí, nada demais, parabéns para ela. Só que lembrei o quanto tempo em que ela está afastada do show business por conta de uma série e problemas de saúde e não tive como não associá-la ao que escrevi aqui . Por um momento pensei na possibilidade de tal parada na carreira ter a ver com aquilo que escrevi na semana passada.

Depois de uma estreia não mais que razoável no álbum 19, a cantora inglesa finalmente “achou o seu ponto” em 21, um disco muito bom para os sempre surrados padrões do pop mundial nas últimas décadas. A maneira como colocava a sua voz sexy dentro de composições quase brilhantes, que emanam o melhor do “neo soul orgânico britânico” que fez a fama de Amy Winehouse enquanto ela esteve sóbria, era estonteantemente simples e, por isto mesmo, quase perfeita.

Aí veio um disco perfeito para seres de planetas onde reina a estupidez, nos quais as civilizações não passam de um amontoado de corpos a intercalar a respiração com algum tipo de pensamento, incapazes de decifrar significados ocultos e cujas capacidades cognitivas são inexistes. Assim é 25, o terceiro álbum que caiu como uma luva para a descrição acima.

Reouvi o disco hoje pela manhã com a esperança de que o passar do tempo tivesse aliviado os defeitos aos meus ouvidos na época. Não deu certo. O clima melancólico e nostálgico que paira em todas as canções certamente era um prenúncio de tudo o que de ruim aconteceu com ela nos anos subsequentes. As reflexões embutidas em cada canção são tão bem elaboradas quanto uma tempestade de detritos cósmicos. É um “chororô” tão enfadonho e repetitivo que parece que em vários momentos da produção do álbum faltou oxigênio nas cabeças de todos os envolvido.

Caso você decida também reouvir as canções de 25 nos “streamings da vida”, note que uma canção como “Send My Love (to Your New Lover)” até que tem lá seu suingue minimalista, mas escorregou na tentativa de levar a sonoridade da Beyoncé para o norte de Londres. Ao despir a superprodução que a americana normalmente colocaria em uma canção desse tipo e optar por um violão e uma base eletrônica mais cadenciada para conduzir tudo, é como se Adele desejasse atrair a atenção de adolescentes fãs de Taylor Swift com uma abordagem mais “classuda”. Um embuste que só quem tem o miolo mole acreditou que “foi feita de coração”.

Alguma coisa realmente estava errada com ela quando decidiu gravar uma música como “I Miss You”, marcado por uma total ausência de suingue. Endurecida, a canção serviu para que Adele colocasse uma vocalização histriônica – principalmente nos refrãos – completamente desproporcional ao que pedia o clima da canção, tão carismática quanto uma nave espacial russa. Seria interessante que ela tivesse ouvido um pouco mais o som do Depeche Mode para entender o que poderia soar melhor do que a gritaria desnecessária que gravou.

Errou ainda mais em “Remedy” e “When We Were Young”, duas baladas conduzidas unicamente pelo piano que sempre deixam aquela velha sensação de “onde foi que eu ouvi isto antes?” e que trouxe Adele exagerando novamente no histrionismo em vários momentos. Embora em termos melódicos e harmônicos as duas músicas lembrassem um pouco a “vibe” daquelas lindas maravilhas que só o Elton John sabe fazer, a interpretação da Adele deixou tudo com cara de trilha sonora do Frozen.

Há momentos em que a mediocridade de uma canção como “Water Under the Bridge” dá a impressão que Adele adoraria homenagear a Alanis Morissette na trilha sonora de um hipotético Avatar – parte 2. Deus me livre! Mesmo que ela tivesse a intenção de trazer um pouco de soul music com pitadas gospel ao álbum com a inclusão de uns troços batizados como “River Lea” e “Love in the Dark”, alguém deveria ter dito à moça que ambas as canções teriam sido rejeitada até pela Rihanna. Um pastiche pseudoautobiográfico incluído aqui só para encher uma linguiça das bravas. Para piorar ainda mais a audição, “Million Years Ago” é daquelas musiquinhas tocadas ao violão em volta da fogueira na praia, só que durante uma convenção de secretárias executivas balzaquianas em algum resort em Miami. O mesmo vale para a pavorosa “All I Ask”, com a diferença que nela o violão foi substituído por um piano tocado por um orangotango não muito chegado em leitura de partituras. Adele cantou com uma estridência tão irritante que levaria qualquer terrorista do Estado Islâmico a acionar suas bombas amarradas à cintura antes mesmo de deixar seu esconderijo. Em ambos os casos, a cafonice reina de maneira tão intensa que faz a Mariah Carey parecer a Nina Hagen em termos de transgressão sonora.

Em compensação, duas canções continuam a soar dignas de nota. A bela “Hello”, que trata a retomada de contato entre antigos amores como uma delicadeza singela, sobreviveu ao teste do tempo, introspectiva e grandiloquente em doses precisas, com ecos da antiga sonoridade que Kate Bush apresentava em suas canções. Detalhe: a bateria que se ouve na canção foi tocada pela própria Adele. A outra é “Sweetest Devotion”, com uma linha harmônico-melódica/melódica/rítmica linda, bem próxima de um country rock psicodélico, que Adele cantou com devoção. Mais nada.

Em várias ocasiões a cantora inglesa chegou a pensar em desistir da carreira, ora por afirmar que não se sente inserida no contexto comercial que todo artista que explode de uma hora para outra se vê praticamente obrigado a aceitar, ora por problemas de saúde, incluindo uma profunda depressão, ora por querer se dedicar exclusivamente ao papel de mãe. Tudo isto acabou causando um bloqueio que a impediu de compor e até mesmo de se apresentar nos últimos anos.

Algumas fontes dizem que ela vai lançar um disco no final do ano. Tenho lá minhas dúvidas. Afinal, Adele parece ser mais “gente” do que a maioria dos artistas que passam o tempo todo pavoneando por aí com suas imensas assessorias. E o show business não é o mundo ideal para quem quer apenas ser feliz…