“Alucinação” trouxe ao mundo a poesia maravilhosa de Belchior

Alucinação Belchior

Fiquei muito feliz ao ler os comentários dos leitores aqui no blog a respeito do texto que escrevi a respeito de Belchior – que você pode ler aqui -, a ponto de decidir com vocês a experiência que tive décadas atrás ao ouvir o álbum mais emblemático da carreira dele pela primeira vez. Sei que posso soar meio repetitivo ao abordar outro assunto a respeito do lendário cantor em tão curto espaço de tempo, mas como o blog é meu e escrevo quando eu quiser a respeito do que eu bem entender, então estamos todos combinados…

Era muito raro para nossos ouvidos nos anos 70 um cantor cearense exibindo sem nenhum pudor o seu forte sotaque nordestino. Para um moleque roqueiro como eu, que naquela época só tinha conhecimento de tal característica de canto por intermédio do pernambucano Luiz Gonzaga, foi um choque ouvir no início de 1976 a primeira faixa de um álbum comprado por amigo que morava na mesma rua em que eu vivia, lá na Vila Gumercindo, em São Paulo.

Assim como fazíamos sempre que alguém de nossa turma comprava um disco, ele nos chamou até a sua casa e botou para tocar o álbum Alucinação, de um tal de Belchior. A voz não era grave, mas não tinha o brilho de quem era considerado “grande cantor” naqueles tempos. Só que a força de Belchior estava na maneira como ele sentia aquilo que estava cantando e no poder poético quase sobrenatural de cada uma de suas letras.

Fiquei boquiaberto ao perceber que logo de cara uma ficha havia caído em minha cabeça quando terminei de ouvir “Apenas um Rapaz Latino-Americano”. Sim, de certa forma, era eu quem estava dentro da canção, mesmo que não de forma literal. Também saquei o quão dilacerante eram os versos de pequenas pérolas em forma de canções como “Como Nossos Pais”, “Velha Roupa Colorida”, “A Palo Seco” e “Fotografia 3×4”. E não consegui esconder o meu fascínio pelas letras “Sujeito de Sorte” e “Como o Diabo Gosta”. De repente, saquei que o mundo era mais complicado e complexo do que eu imaginava.

Sem jamais abrandar o discurso social escondido por trás de metáforas espertíssimas, Belchior desfilava pelo álbum suas incertezas, os conflitos de sua alma atormentada pela censura oficial, pelo desprezo endereçado à sua cidadania e pelas agruras emocionais que todos vivíamos, independente de nossa classe social.

O discurso era tão certeiro que atingiu em cheio até mesmo moleques cabeludos e espinhentos como nós, para quem o mundo musical se resumia a guitarras distorcidas e baterias descabeladamente alucinadas. De uma para a outra, a poesia e a interpretação de Belchior nos deu uma visão diferente de nosso cotidiano, muito além dos Led Zeppelins e Deep Purples da vida.

Quatro décadas depois, reouvindo este álbum enquanto escrevo este texto, sinto a mesma sensação avassaladora que me atingiu naquela mesma sala junto com meus amigos. Onde quer que eles estejam, torço para que sintam o mesmo ao ouvir este disco brilhante…

20 respostas

  1. A maneira como Belchior cantas suas canções, a maneira como as frases são arrumadas nos versos, a melodia, a forma trágica e dramática de dizer as coisas… quando eu o ouço, lembro de um outro conterrâneo da “paraíba”, de fato paraibano, o poeta Augusto dos Anjos. Tive a sorte de assistir um show desse “paraíba” do Ceará pouco antes dele “sumir”, acho que em 2003, em Natal/RN. Era voz e violão, o dele, e de um outro que o acompanhava, que não lembro o nome. A propósito Régis Tadeu, caberia um “aposto que você não sabe” sobre o Belchior? Abraços, e alvissaras!!.

    Em tempo: sou Paraibano, de Campina Grande.

  2. Belchior cantava as pessoas comuns, com seus anseios, sonhos, felicidades e tristeza, cantava com a voz do Brasil continental onde vários sotaques são ouvidos e todos eles são nossos. Belchior tinha poesia, música e um olhar aguçado captando tudo aquilo ao seu redor.

  3. Poucos artistas entenderam e expressaram a vida de maneira tão realista e profunda como Belchior. Como comentado acima, achobque seria muito interessante um Aposto Que Você não sabe, sobre o nosso querido Rapaz Latino Americano Sem Dinheiro no Banco.

  4. Régis, um belo texto, assim como o primeiro que vc escreveu sobre o enorme Belchior, cuja importância para nossa música ainda está para ser melhor dimensionada, na minha opinião.
    E além do Alucinação, qual outro álbum dele você gosta e recomenda a audição? Abraços

  5. Em um outro texto, mais antigo que o escrito antes desse, você colocou que Belchior tinha uma atitude muito mais roqueira que muitos ditos roqueiros, com certeza muito além de Leds e Purples. A sua postura diante da indústria da música o fez ímpar. Entretanto, a grande maioria, o que é uma pena, o enxerga como um cantor cafona, talvez pela dificuldade de entenderem o seu discurso disfarçado de música. Legal, você é sempre certeiro quando escreve sobre essa lenda, parabéns!!!

  6. Tenho essa ensação de descoberta cada vez que abro seu blog e leio um texto novo, cara. Como sempre, um texto relevante e carregado de verdade e emoção. Um abraço sincero e carregado de admiração pra ti.

  7. discaço grade régis.análise fantástica de um dos maiores conhecedores e apreciadores de música no mundo.tenho orgulho de ser um leitor de suas análises musicais.sou de tianguá no ceará.disco que colocou o extraordinário belchior no cenário musical brasileiro.adoro a faixa sujeito de sorte.abraço e sucesso sempre.

  8. Segundo o Valtinho, que manja muito de música e é antenado, vários críticos musicais aí das redações, que segundo ele incluiriam você, só começaram a dar valor pro Belchior depois que o Los Hermanos o regravou. Procede a informação? Rolam boatos também que vocês (críticos) colocaram o amarante e o camelo como os novos “belchior” e mais atualmente o Silva. É verdade isso aí? Eu não concordo. belchior está muito acima. Parabéns, Régis, pelos textos. Abraços

    1. “Valtinho”??? Quem é esse cara?
      Se eu acabei de contar a experiência que tive em minha adolescência ao tomar contato com a obra do Belchior, como poderia “dar valor depois que o Los Hermanos o regravou”? E se todo mundo sabe da bronca que tenho em relação ao Los Hermanos – que já registrei em vídeos e textos -, como você tem coragem de vir aqui e escrever uma merda desse naipe? Você bebeu ou é apenas um idiota tentando encher o meu saco, “Cap Troz”?
      Que estupidez…

  9. Eu acho que você deveria criar uma parte no seu site dedicado somente a resenhas, principalmente de artistas brasileiros. Eu vejo resenha só desses artistas atuais, mas bandas antigas antigas, da época do vinil, é algo raro. Isso também é uma forma de divulgação, já que quando se fala algumas verdades, os fãs não gostam e vem visitar o site. Parabéns pelo texto. Abraço.

  10. Olá, Régis,

    O Belchior tem a maravilhosa trinca: “Aluncinação”, “Coração Selvagem” e “Era uma vez um homem e seu tempo”, grande influência para mim também.
    Conversando com o Rick Ferreira (Raul Seixas) numa viagem para um show em Curvelo ele me disse que se amarrava demais no “Era uma vez”, que ele (e outros) apelidava de “Medo de Avião”.

    Além da própria capacidade do Belchior de ir com a ponta da navalha na nossa carne, admiro também estes discos pela qualidade dos arranjos, os supertimbres de Hammond, Rhodes, Synths maravilhosos – não sei, chuto ter um Arp Quadra na “Velha Roupa” – guitarras e baterias impecáveis.

    Eu sinceramente acho que muitos dos grandes nomes da MPB são praticamente Rock, como Zé Ramalho, Alceu e Belchior, com um acréscimo: letras muito melhores que as tradicionais “bandas de rock” da época. Na verdade são muito mais “Rock” que muita bandinha das últimas décadas.

  11. Li esse texto da primeira vez que você publicou, ouvi o disco inteiro.

    Simplesmente sensacional!

    Só conhecia “um rapaz latino americano, como nossos pais e velha roupa colorida” as 2 últimas na voz de Elis Regina.

    Fotografia 3×4 e linda.

    Um dos meus discos favoritos de música brasileira.

    Obrigado pela indicação.

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