Angela Maria nos deixou…

Infelizmente, é a realidade: grandes artistas do passado estão morrendo quase que semanalmente.

Semana passada, escrevi a respeito da morte de Tito Madi – que você pode ler aqui – e não consegui escrever a tempo textos que homenageassem em vida uma das grandes cantoras do Brasil, um lendário bluesman criminosamente ignorado no Brasil e o mais conhecido cantor francês de todos os tempos. Angela Maria, Otis Rush e Charles Aznavour, cada um a sua maneira, tiveram carreiras que tornaram este planeta um lugar menos insuportável de se viver. Vou escrever a respeito de cada um deles nos próximos dias…

Angela estava internada há mais de um mês e morreu aos 89 na noite de sábado, vitimada por uma infecção generalizada e consequente parada cardíaca. Um triste fim para quem brilhou nos palcos durante décadas, mesmo quando só podia ser ouvida nas ondas do rádio.

Ao longo da carreira, despertou a admiração e até mesmo a idolatria por parte de muitos artistas tão grandes quanto ela. Roberto Carlos e Elis Regina eram os principais deles. Formavam um trio que tinha uma incrível capacidade de despertar uma enorme gama de sensações nas pessoas de todas as classes sociais. Até mesmo o então presidente Getúlio Vargas, deliciado com a voz adocicada de Angela, apelidou-a de “Sapoti”, fruta de sabor extremamente agradável. Desde que surgiu no rádio na década de 50 com sua voz incrivelmente potente – ela era mezzo-soprano – e de timbre cristalino, ela deu ao bolero, ao samba-canção e até mesmo ao tango uma dimensão de interpretação nunca ouvida até então.

https://www.youtube.com/watch?v=qkEN_OvKKLY

https://www.youtube.com/watch?v=nF71dTpcAQY

https://www.youtube.com/watch?v=cKkfCEDbMsI

 

Obviamente, ela enfrentou altos e baixos em sua carreira, como qualquer artista que se preze. Muito por culpa dela mesma, que passou vários anos gravando discos com repertórios de gosto extremamente duvidoso e que não tinham mais o mesmo apelo junto ao público. Para piorar, passou a ser desprezada tanto pela crítica especializada quanto pelas novas gerações a partir do surgimento da bossa nova e suas vozes pequeninas, além da própria Jovem Guarda. De repente, Angela passou a ser classificada como “cafona”, “fora de moda”. Virou a “cantora de ‘Babalu’”, o célebre mambo de 1939 da cantora cubana Margarita Lecuona.

 

Deu a volta por cima a partir da segunda metade dos anos 70, quando voltou a exibir um repertório um pouco mais classudo em seus shows e nos discos que gravou desde então. Voltou a ser idolatrada por uma nova geração de artistas – Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Fafá de Belém, Gal Costa, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Cazuza e Ney Matogrosso, entre tantos outros – e nos últimos anos, vinha cantando em tons um pouco mais graves, mas ainda com a firmeza e doçura do passado.

Tomara que as futuras gerações não esqueçam quem foi a “Rainha do Rádio”…

2 respostas

  1. Meu tio Roberto Domingues teve a honra de cantar com ela em meados dos anos 60/70. Era apaixonadíssimo por música e venerava doidamente Ângela Maria. Abandonou a música para casar e ter uma , digamos , ” profissão” adulta rs. Ele contava da grandeza de coração e humildade da Ângela , se doando a todos. Sempre que reunia a família aos finais de semana cantava os sucessos dessa época linda para nós e sempre se emocionava só de falar dela, mostrar fotos , gravações da época.
    Sorte ele ter partido antes de ver sua grande Musa e Diva descansar no Senhor.
    Ângela , Charles , Otis ….minha infância restando apenas na memória dos discos.
    É o fim de todos nós …mas mesmo assim machuca .

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